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Artimanhas do Diabo

Artimanhas do Diabo

HASTA LA VICTORIA SIEMPRE 

EQUIMOSES  

Não me apertam as saudades,

Tuas ou doutrem,

 

Mas sofro,

Sim, sofro,

Com todas essas as vozes

Que ecoam na tua cabeça

 

Às vezes,

M`espanto

E comove-me  

Tanta obstinação caprichosa  

 

Outras,

Abomino tanta toxicidade

Acaba explodindo o vulcão que existe      

Nas profundezas da tua alma 

 

A lava queimará todas as rosas e espinhos

E tudo se transformará em cinza 

Escura como breu

 

E da água límpida,

Redentora,

Que é feito dela?

Estendes-me a salgada do mar

Que não me apaga a sede

E ardem-me as feridas antigas da minha alma!

glicinia.jpg

 

E porque a vida não se detém apenas nos nós dos nossos dedos, mas atravessa-os e passa para os nós dos dedos dos outros.

E porque o rio, ora corre estranho, indizível e denso, ora se movimenta cristalino e agressivo abrindo uma fenda na rocha, desabando copioso desde o alto até ao sopé da montanha.

E porque as palavras, por vezes, soam estranhas e indecifráveis: falar ou escrever torna-se uma tarefa impossível de realizar pois falas tu, falas tu; falo eu, falo eu!

É chegada a hora de agradecer a vossa simpatia e o cuidado que demonstaram o que nestes meses fui escrevendo diariamente nas “Artimanhas do Diabo", o que me permitiu estreitar a minha escrita e os meus sentimentos com alguns de vocês, bem visível nalgumas mensagens deixadas nos meus textos.

Mas, neste momento, a exigência da minha atividade profissional e toda a ética que lhe está implícita é incompatível com a manutenção deste blogue. Pelo que, cessarei com a minha pulsão de escrita aqui neste espaço e, se nada me acontecer entretanto, quando me aposentar, cá regressarei para rever velhos amigos e apreciar novos talentos que entretanto possam ter nascido e passado a vivificar neste tão difícil mundo da poesia e da prosa ou das duas que convivem em simultâneo.

Vou continuar a escrever mas, como sempre o fiz até há bem pouco tempo, só para mim, como o faço há largos anos; até nisso tenho a costela materna da poupança e guardo os escritos, conservando-os para não esbanjar recursos.

A todos, as maiores felicidades e votos de um futuro melhor!

Assim como, de repente, comecei a escrever compulsivamente todos os dias e a publicar; da mesma maneira, e algo até surpreendente, cesso com esta minha pequeníssima contribuição para o mundo das letras, ficando apenas e a benefício de inventário as minhas palavras e as palavras de todos aqueles que quiseram deixar os seus sempre bem-vindos apontamentos. 

Há silêncios que matam, há, porém, outros que são redentores! A quem não se sabe ouvir e ouve sobre si, pela boca dos outros, o que não quer ouvir, deixo um pensamento judaico: “o topo da inteligência é alcançar a humildade” e que maior humildade do que submeter-se ao anonimato…  

Respeitosamente

De quem não tem outro remédio  

Etan Cohen

ESPÍRITO LIVRE

Rumino

Copiosamente as aparas

Colhidas das minhas prenhes dúvidas  

Que, invariavelmente, me acompanham 

E que não me deixam sossegar

 

Revejo

Uma e outra vez

A orgulhosa dimensão da minha saudade

 

Padre revolucionário

Agitado pela inabalável convicção no Homem

Desgostoso com a sua fé

Criatura intemporal e avançada  

Sedenta em viver e amar

 

Mas desse efémero contato 

Que guardo nas minhas memórias

De um passado já remoto

Assalta-me, por vezes, a dúvida

Se o adolescente viveu mesmo tudo aquilo

Ou tudo não passam de fantasias?

 

Mas como difícil foi persuadir-te

Padre,  

Dos perigos em que vivias 

 

E quando, finalmente, te convencestes

Que a ferida gangrenara 

Havia uma sombra a perseguir-te

A tua vida baça, era futuro sem futuro,

E como negro se punha o teu destino

Detonaram-te

Desfizeram-te em fragmentos

 

E esse homem fascinante

Cheio de luz e brilhantismo

Ficou tão transfigurado

Que até o legista,

Na hora em que afincadamente pesquisava   

As evidências mais sólidas  

Que explicassem tão estranho rebentamento

Que lhe ceifou violentamente a vida,

Deixou-se envolver por fortes sentimentos

E trabalhou com afinco e meticulosidade,

Para cozer todos os orifícios do corpo

Lacrimejados de sangue ressequido

 

Revejo, miro o passado,

E avisto uma fresta transparente 

Que me permite ver

O teu rosto escanhoado,

(conhecia-te apenas de rostos pululado de longas barbas)

Imóvel, abrupto, sem luz

Depositado no interior do caixão fechado

 

E ainda hoje não vislumbro

As razões do teu assassinato  

Que acabou por te transformar num mártir!

 

Mas tu, padre,

Eras um homem que despiu a batina

E que queria, à viva força, ser feliz

E viver como um cidadão normal

Com um sonho estampado no rosto

E que não se cansava de repetir

A nós adolescentes:

- Acabar com a sociedade fascista…

Que nesses primeiros tempos de revolução cravina

Tardou, bastante!

 

E eras assim tão amaçador, tão justo desígnio,

Para te matarem como um perigoso criminoso?

 

Morreste cobardemente

Às mãos de gente estúpida

Primitiva e tão reles

Que apenas tinha no seu vocabulário

Vingança

E que estava nos antípodas

Do “quando não os podemos vencer

Junta-te a eles”!

 

Mas, padre revolucionário,

Será que, ao menos onde estás,

Vingaste-te, impondo os teus ideais,

Dos algozes que tão cobardemente te assassinaram?

Tenho a certeza que sim

Desassossegada criatura! 

 

Ao padre Max

 

 

DESASSOSSEGO

Desperto

Tão mal dormido!

 

Acabo questionando-me

Porquê

Tanta amargura

Tanto ódio destilado

Tanta frustração

Tanta obsessão

Para esventrar as almas

A própria e a dos outros?

 

Destruímo-nos

E destruímos os outros

Vendo em nós e nos outros

Apenas a raiz do mal!

 

Estendo-me na areia

Avisto, lá longe, um navio

Ignoro aonde se dirigirá

Mas sei que,

No espírito de cada marinheiro,

Há aquele desejo incontido

De algum dia

Encarar algumas das divindades

Que pululam o imaginário do oceano

 

A luz omnipotente

Lançada pelo farol

Irradiando longínqua pelo mar

Atraí sempre os marinheiros

Que a perseguem

Com aquela saudade estampada no rosto

Emocionados com o brilho intermitente

Do braço do velho faroleiro 

 

Nas noites de brumas mais densas

Ouve-se ao longe

O brado rouco do farol

Que avisa os barcos dos perigos do mar    

E que os conduz,

Como a um cego pelas ruas da cidade,

Até porto seguro 

 

Sussurro ao mar

Os meus melindres

Confesso às centenas de gaivotas,

Que esvoaçam, cruzando-se no ar,

Levadas pelo vento,

As minhas mágoas

E a minha vontade necessária

Em chegar ao fim  

 

Eu sou a fiel gaivota

Tu és o vento  

Sempre tão imprevidente  

Irrascível e desconfiado 

Que não se cuida

Nem cuida de ninguém

 

As gaivotas fortalecem-se

A lutar contra o vento  

Planando as suas asas arqueadas

Ziguezagueando

Penduradas no vento  

 

Mas tu vives no meio desse ciclone demencial

Que te destrói e destrói os outros

 

Decepas todas as videiras  

Vangloriaste de te dar com o diabo

Que, ardiloso, tudo destrói

 

O segredo estava dentro da garrafa

Mas rejeitaste-a olimpicamente

E correste a fulminar

Com esse teu veneno

Que te acaba matando aos poucos

 

Se queres viver aí onde estás

Vive nessa solidão

Pois pequena e burocrata é a vida

Para tantos ditames

Que diariamente efabulas

 

Melhor seria viver apenas a vida

E deixar que a paz regressasse outra vez às nossas vidas  

Mas a paz, com algumas criaturas,  

Será imensa e eternamente impossível! 

ÍNDIA

Por ela viajo

Com a intermitência de um sonho

Que não acaba jamais

Que se repete uma e outra vez

Deixando-me voar e ser quem sou

Até consumir as minhas energias

E ser quem sou

Ou fui no passado 

 

Seduzido

Absolutamente rendido

À sua incomparável energia  

Deixo-me conduzir

Embalado pelo som de uma sitar

Que enxuga a minha alma 

Das lágrimas da saudade 

 

Percorro as ruas

Apinhadas de multidões consuetudinárias

Que não cessam de vir e de ir

Permanente som das buzinas de carros e carretas

 

E as vacas sagradas que se passeiam pelas cidades

Indiferentes ao bulício dos transeuntes 

 

É o movimento de homens e mulheres

Que se meneiam circunflexos

Naquele sol que esquenta

No ar irrespirável

Que se respira

Naquele abissal território  

 

Sons que penetram as nossas entranhas

Os sons dos idiomas que parecem preces

 

Pássaros escuros que voam

Aos magotes nas cidades

Ruas encardidas

Que dão um ar trágico  

 

Gerações sucessivas de macacos

Que permanecem nas cidades

Vivendo pendentes dos homens

E surripiam, descaradamente,

Quando a comida não chega voluntária

 

Mas as ruas são, por si só, um repositório

Das imensas e demenciais contradições

Da pátria de Gandhi 

 

Nas ruas fala-se de tudo

Da fé que os move

Da política e da corrupção que os envolve

Da vida, cada vez mais difícil e cara,

Do dinheiro, que é insigne em todo o lado,

Tão parco ali naquelas paragens

Do tigre que dizimou uma casa de agricultores

Ou da cobra que engoliu a criança

 

Mas na rua também se come

Também se namora

Também se firmam contratos

Com um aperto de mão

 

Na rua dorme-se

Defeca-se sem pudor

Ouve-se uma voz de falsete

Que parece chamar por Sagui

 

Escuta-se, com profundo respeito, o pujaris

Que disserta longamente

Entoando versos

Densos e de incomparável beleza espiritual

 

Mas a Índia é o Ganges,

Esse rio sagrado,

Que em Varanasi

Se multiplica de fogueiras

Iluminando as almas que partem  

Até ao além  

 

Rio formado na indomável

Energia dos seis irmãos

Acabando diluído na baía de Bengala

 

Quanta terra

Quanto sabor

Quanto suor

Quanta dificuldade

Quanta história

Absorves, ó Ganges,

Nessa tua viagem milenar?

Águas lamacentas

Que matam a fome

Aos que nada têm

Em certos dias causticados

Pela tragédia

Que, ali naquela pátria,

Está sempre eminente!

 

CRIANÇA

Criança

Que chora

Que ri

 

Criança, criança apenas,

Que não quer ser adulto

 

Criança que adula os seus sonhos

Que roça nas suas fantasias

E que acaba dormitando  

No regaço da mãe

 

Criança, é mesmo criança,

 

Vive desenhando

Vive pintando

Imersa nas folhas brancas do papel

Garatujando singelos esboços de figuras

Que pululam a sua fértil imaginação

Com os frágeis lápis coloridos

Que a mãe a presenteou  

 

Mas a criança desespera

Quando rompe as pontas dos lápis

E não consegue acabar os desenhos:

A casa, o mar, a árvore, o cão, o sol…  

 

Mas, criança não desiste,

É mesmo assim,

Criança não envelhece

Não se esquece

Recusa crescer

Partilhar

Deixar de ser o centro das atenções

 

E por isso, criança,

Vai afiando as pontas dos lápis rompidas

Vai conservando as aparas

No meio dos livros

Que falam do João do balão

Ou da dona galinha

 

Mas, criança,

Nunca vai ser, ela própria,

Segura

 

Criança

Vai precisar sempre

Do peito da mãe

Para descansar

 

Criança

Vai precisar

Da dureza do cimento

Do caráter do pai

Para ser convicto

E, com a robustez deste,

Acabe derrogando todos os receios

Com que a vida o surpreenderá

 

Criança suplantará

As suas frágeis indecisões

Trará o sabor dos seus doces

Debaixo do seu ténue palato

Andará sempre com o ranho no nariz

Com a lágrima fácil a escorrer-lhe pela face

Com o grito ululante que percorre os cantos da casa

E mesmo no maior desespero

Do dia ou da noite

A criança acabará sempre rendida

Ao envolvente abraço

Da mãe

Da tia

Ou da avó

 

Pois, jamais se olvidará

Daqueles braços quentes e envolventes

Que a apertavam com o vigor

De um abraço forte

De quando era criança

 

Apenas criança, criança apenas,

Que importa mais na vida

Do que ser criança,

Somente criança?

Para poder ser beijada

E perdoada

Pelos múltiplos disparates

Que na sua qualidade 

Lhe é permitido enquanto criança  

 

Criança

Que te quero criança

Como quero sempre o mar acetinado

Brilhando no horizonte

Como quero as estrelas a cirandar

Nas noites cálidas de Verão

Como preciso do sol

Para me aquecer os ossos dos frios dias de Inverno

 

Mas criança também é

O pirilampo que se apaixona pela luz

Ou a água da nascente que corre para o mar

Atraída pela aventura

 

Mas criança não é ser um adulto pequeno

Em criança, sê criança mesmo,

É sonhar acordado

Fantasiando, pintando o mundo,

É ter amuos constantes

E logo a seguir correr para os adultos de braços abertos

Enchendo-os de talhadas de amor

E dos golpes precisos de um amparo

 

Mas criança é uma tão frágil criatura!  

ESPERANÇA

Enquanto a água do rio corre

Há esperança

 

Enquanto as ondas do mar esbranquiçadas

Se despenharem nas amenas areias da praia

Há esperança

 

Enquanto as andorinhas

Os cucos

Os gaios

Os corvos

(Ah…esses malandros dos corvos, tão inteligentes!)

As gralhas

E os pintarroxos

Arribarem às nossas terras todos os anos

Há esperança

 

Enquanto continuarmos a amar

A perdoar, a esquecer

A apreciar a beleza da vida  

Há esperança

 

Enquanto sentirmos prazer em saborear

Uma doce e madura cereja

Uma suave amora

Um voluptuoso morango

Há esperança

 

Enquanto os taninos nos encantarem

E desafiarem a nossa imaginação

À procura da proveniência do vinho

Há esperança

 

Enquanto as trutas se esconderem

Nos remansos, junto às margens,

Tuteladas pelas sombras

Das folhagens viscosas dos amieiros

Há esperança

 

E mesmo que o rumo da vida

Se aparente a um desfiladeiro

De rochas abruptas e pontiagudas, garganta apertada,

Das margens do rio que corre suave

Amansado pela represa da barragem

Haverá também sempre esperança

 

Só não haverá esperança

Quando a palavra desaparecer do léxico

Quando nós próprios deixarmos de sonhar

 

Quando já não houver dia e noite

Quando a terra apagar, de vez,   

A nossa passagem pela terra  

Quando já não houver vontade

Mas sim outra forma de vida

Sem ambiguidade    

 

 

Mas, debaixo da maior esperança que há no mundo,

Que em mim é razão de existência,

Quero continuar a calcorrear

Os caminhos que me atrevo a encetar

Para cuidar das pessoas próximas

Como se cuidam das frágeis flores  

 

A apreciar deliciado os rouxinóis cantando

Nas proximidades dos regatos

Saltitando de júbilo nas copas das árvores

A contemplar, maravilhado, as mariposas

Que, com o seu voo saltitante,

Andam de flor em flor a colher

Tão precioso néctar

 

Mas a esperança,

Além de se desejar,

Constrói-se

Projeta-se

E mesmo que emerso na escuridão,

Em múltiplos desígnios

Que brilham nas noites de insónia

Haverá sempre a esperança

Que o mundo não acaba amanhã

 

Mas, esperança, é também passar o testemunho   

Para que outros façam melhor do que nós

 

E esperança, haverá sempre esperança,

Quando não houver sequer um dia

Que não evoquemos os ausentes mais queridos

Para que essa esperança que temos hoje

De falar interiormente com a essência

Dos que partiram

Outros, amanhã,

Possam falar com a nossa essência

Quando, por fim, partirmos!  

YUKIO MISHIMA

Vais-me dizendo,

Dizes-me…

E no derradeiro instante  

Antes que possas perecer

Vens com a possibilidade:  

A benefício de inventário

 

Mas logo,

Antes que as tuas exigências hereditárias se estabilizem,  

Acenas com um “adeus”

E com uma magistral citação da Clarice Lispector 

 

E num derradeiro esforço

Como uma guerra que travas interiormente

Resolves acabar!

 

Mas não te ficas simplesmente no acabar

Mas anuncias o derradeiro “fim”

Dramático

Do sangue que jorra de um dos olhos

Da lágrima embevecida

Que eclode no olho oposto

 

Mas o que me intriga

E concentra toda a minha atenção

É esse terço enrolado

Nas mãos eretas e apontadas ao céu

 

As mãos, essas que me mostras,

Parecem estar endiabradas e a rir

De mais uma das artimanhas Dele

Do mafarrico

 

E sentes que a tua hora parece estar a chegar

E queres, num derradeiro esforço,

Compartilhar com ele a tua dor

 

Mas bem na extremidade do terço

Que parece um prumo nas tuas mãos,

Emparceiradas uma na outra,      

Eis que surge uma agonizante imagem

Que acaba por me provocar justo receio!

 

Uma caveira

Sim, uma caveira,

Descarnada,  

Sem a pele que a cobriu em vida

 

Caveira

Despida, nua, monstruosa

Que mira com altivez

E parece pronta a mortificar-nos

 

Parece decidida

A levar deste mundo

Quem tanto gosta

De neste mundo viver e estar

E que tão gratas recordações

Guarda deste mesmo mundo:  

Um mar delas

Que cintilam a cada passo 

Como estrelas no céu

 

Mas como desistires de escrever?

Se a escrita está no teu ADN

Se a escrita, e só ela,

Te faz caminhar entusiasmada

Nessa vereda pejada de árvores

Que oxigenam a tua mente?

 

Mas, não me sai da cabeça,

Essa tua decisão

Que eu não sei se a levarás a efeito

 

Mas se a fizeres, mesmo contra a minha vontade,

Fá-lo, ao menos, como Mishima:

Seppuku!

Assim, tem mais impacto…

 

 

 

  

 

 

QUERIDO LÍDER

Minha imponente luz

Que ilumina a minha vida

E que cintila com a força de uma estrela  

Aos que tiveram a fortuna de nascer

Na nossa linda e adorada Correia do Norte

 

Nunca escrevo…

A minha vida está totalmente

Centrada na fábrica

Para produzir

O que o nossoQuerido Líder,

Iluminado com a ajuda dos pais da Nação,

Tão sabiamente ordena

 

Mas como não podia deixar de escrever sobre ti?

Tu que és imenso, universal e único

E não essa figura inventada pelos traidores da nossa Querida Nação 

E a quem lhe chamam deus

 

Querido Líder,

Tu que magistralmente governas as nossas casas

As nossas cidades, vilas e aldeias

E que nasceste naquela pobre cabana

Na montanha Paekdu

E que, perante o teu nascimento,

Uma imensa estrela cadente

Transpôs os céus

E o duro Inverno

Transformou-se em Verão

Iluminando o céu com um enorme arco-íris duplo

 

E a partir desse mesmo dia

A montanha Paekdu tornou-se sagrada para todos nós

E viverás sempre no coração dos norte-coreanos

 

Longa vida para ti

Descansa na sagrada montanha Paikadu

Pairando magistral pelo universo  

 

Defende-nos dos nossos inimigos

Como nos defendestes,

Ainda agora,

De tão terrível pandemia

Que fulminará todos os traidores da causa socialista

 

Todos os dias penso:

Como é possível duvidar  

Da imensa sabedoria do Grande Líder?   

Que com uma tacada apenas

Conseguiu executar onze hole-in-one* consecutivos

E que acabou achando jogo demasiado fácil

Que o levou a desistir de jogar golfe!

 

Poema que bem podia ser da autoria de um anónimo, como anónimos são a maioria dos habitantes da Correia do Norte, e que terá, ou não, dado à costa no mar da Correia do Sul.

*Hole in one é uma jogada na qual o golfista acerta a bola no buraco com uma tacada apenas.

EPIFANIA

Parque

De lustro suave

Aveludado

Como se fosse uma pedra

Que traja com as suas vestes

Tricotadas a musgo

 

Sorriso incandescente

De verde esperança no futuro  

Espaços amplos e arejados

De terra suturada

A relva viçosa

 

Perscrutam, aos saltos,

Com a velocidade de um desejo,

Na relva que se estende ao olhar 

Os incansáveis melros

Que buscam ávidos as minhocas  

Que se movimentam vagarosas

Pelo meio das gramíneas

 

Mostram-se os elegantes verdilhões

Que, jubilosos, interpretam

As suas velhas melodias de encantar

 

Cintilam os pirilampos nas noites quentes de Verão

 

Flutuam nas águas do apertado ribeiro

Os incansáveis alfaiates

 

De supetão, quando se aproxima alguém,

Saltam para a água as rãs,

Que aquecem a sua pele viscosa ao sol

 

Escondem-se os ardentes amantes

Buscam as folhagens mais densas

Que os proteja dos olhares

De quem não aprova

Um simples beijo em público

 

Mas naquele parque

Avistam-se árvores subjugadas

Aos rigores climatéricos

Às podas sucessivas

Que os infatigáveis jardineiros

As vão submetendo sucessivamente

 

Mas naquele parque

Vêem-se flores

Que expõem com brandura naturalista

As suas fulgurantes cores

Ou outras, primas das primeiras,

E que exalam os seus belos odores

Que fazem daquele espaço

Uma agradável orquestra

De múltiplas fragrâncias

Que estimulam o nosso olfato  

 

Mas tão belo e equilibrado parque,

Projetado e construído   

Genuinamente,

Pelo engenho humano,

Não dista muito do centro da cidade

 

Mas não se fica por ali

O parque

Atravessa-o, ou melhor,

Rasga-o um pequeno riacho

Que corre, corre, sem cessar

De cadência firme e agitada

Adubado pelas férteis terras

Por onde ele passa

 

E foi ali, no meio daquele Império açoriano,

Erguido em memória da mão natureza,

Que pela primeira vez tive a mão dela na minha

Olhei-a profundamente

Cravei-lhe um olhar que não a deixou indiferente

 

Ao de leve, vagaroso, com a paciência oriental,

 Acabei roçando-me pelos seus seios

Que se enrijeceram e se avolumaram

 

E foi ali que me dei conta

De como ela arfava de contentamento

Perante a minha proximidade

Excitada pela minha envergadura

E eu tinha-a defronte a mim 

Tão pequena e tão frágil

Como se fosse uma rosa nas minhas mãos

 

E nessa proximidade

Que rapidamente se tornou intensa  

Que ela me confidenciou

Como lamentava não me conhecer há mais tempo

E se foi encostando ainda mais a mim

Quando sentiu a dureza da minha excitação

 

Por fim beijei-a profundamente

E sorvi ufano a sua saliva 

Como uma borboleta  

Ao aspirar o néctar das plantas

 

Quando perpassei a língua dela

Senti-a a explodir de sentimentos

 

E nesse êxtase final 

Dei-me conta,

Louvando a indesmentível beleza daquele parque,  

De que como fulgurante e arrebatador  

Nos confere

A multiplicidade de reações e de sentimentos  

De quem vive a força

E a intensidade

De uma paixão correspondida!  

 

AURORA BOREAL

Não te quero ter

Só para te exibir

Como se fosses uma montra

De um luxuoso mostruário

 

Não te quero ter só para possuir

As tuas quimeras, os teus desejos

E te transformar

Em minhas quimeras e desejos

 

Quero-te ter

Para te olhar densa e profundamente

E gravar

Na pura seda que esvoaça ao vento   

Todas as minhas súplicas

Que, ininterruptas, não cessam

No decurso da minha vida   

Como o brilho das estrelas

Que cintilam no eterno firmamento

 

Olho para a tua alma

E que vejo?

A tua grandeza, profundidade e empolgamento

Do teu complexo ser o que me comove?

Ver gravado

O teu e o meu

Nome!

 

Enxergo na tua alma os teus olhos

Que, ora veem,

Ora sentem mais do que o que veem

 

Mas deixa-me escutar as tuas preces

Deixa-me ouvir as músicas

Que nós os dois ouvimos 

Tantas e tantas vezes

Deixa-me penetrar nesse teu intenso coração

Para ver como ele bate assaz melodioso

Que sustentará todas as dificuldades:

Ausências, amuos, zangas

E onde as cores vistosas

Do universo  

Incendeiam

Ainda mais

A nossa intensa paixão  

 

Nos teus olhos

Que, com o tempo,

Acabaram resignados

Ao que cada um de nós aportava

Vejo correr a intensidade do amor

Da paixão

Que não te largam jamais

Da incessante atração

Dos nossos corações

Que, mesmo envoltos em espinhos,

Nunca se esqueciam

De acalmar a nossa ira momentânea

 

Essa tua indómita vontade

De viver arrojada e impulsivamente  

Não cessa de me envolver

E de me aquecer

Como se fosse uma manta

Que me acalenta todas as evocações

E os instantes de vida que o meu corpo

Sente

De cada vez que te evoco

 

Mas longa é a memória

Curta é a vida

 

A noite captura o dia

O sol desaparece do céu

A vida em sombras

Perpassa pelos ínvios momentos 

Dos descoloridos reflexos

Que se assomam, aos instantes vividos,

Ao que memória nos concede

 

Mas tu está lá

Está sempre lá

E mesmo que te ausentes para parte incerta

 A força da tua luz,

Como uma aurora boreal na longa noite,

Dá-me a dimensão

Do fulgor do brilho que resplandece  

Dento de mim

Sobre ti!   

 

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