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Artimanhas do Diabo

Artimanhas do Diabo

POEMA A DUAS MÃOS

Belmonte 4.jpg

Entristece-me vê-lo

Nessa senda culposa

Só porque entende

Que o amor se aprisiona

Capturando a alma

Da sua consorte

Na hora em que se assumem votos  

De amor eterno!

Vai-te peçonha

Maldosa

Insipiente

E tão perigosa

Segura de si

Inabalável

Nesse mundo dual

De que eu sou tua  

Para sempre!

Fui desejada

E tive a ousadia de desejar

A quem não firmei votos

De amor eterno contigo

E tu

Nessa tua ancestralidade enfadonha

Decretaste:

Pecado capital!

Não entendes

Que tu queres-me

Como sempre quiseste

Para me silenciar

E dar voz a essa tua cobardia

Insonsa

E ele

Em tão poucos instantes de vida

Mostrou-me

Que eu tinha que crescer

E me inspirou

Para deixar de alimentar

A fera que eu própria nutri

Tão roliça e luzidia

Todos estes anos

Silenciando-me;

Tu queres-me

Para mandar em mim

Para me controlares

Nessa tua dissimulação

De boa alma

Tão perturbada e maligna interiormente…

Todos os instantes da minha vida

Humilhaste-me

Com a tua altivez  

De controlar

E formular a eito juízos morais

A tua pequenez

Não conhece limites

És tão previsível

Tão modorro

Um inqualificável mandrião

E como foi possível

Na hora em que firmei votos contigo

Que eu não visse

Tamanha parvidade

Numa mesma pessoa

Que tarda em compreender o seu papel atual na minha vida:

Nenhum!

 

 

 

 

 

 

Ó meu amor

Deixa que a paixão flua normalmente

Deixa corar esse manto

Coroado de estupidez

Na relva mais fresca próxima do rio

Para o purificar

Arranca sem hesitações

Foge dessa luminária

Desse inqualificável

Ladrão de almas

Que te enfraquece

Que tudo te roubou

Não queiras que te subtraia mais um quarto de século de vida

Foge dessa afrontosa nuvem negra

Que tapa esse sol

Que te devia tão bem iluminar

Deixa que as ondas desse mar

Limpem a areia dessa praia

Afastem as sujidades mais imundas

Mesmo que seja teu lixo

Que já não o queres  

Mas que ele teime

Em recicla-lo

Para to dar em doses cavalares,

Uma suave lembrança

Aflora ao meu corpo

Na hora em que vislumbro

Aquela espaço ajardinado

Repartido

Pelas águas serenas

De um velho riacho

Que divide o espaço

De um lado

O caramanchão dos amantes

A felicidade dos sabem amara

Do outro

A bestialidade de quem não sabe o que é o amor

E se esconde naquele matraquear

Permanente

De que é ridículo…

Mas,

Amor,

Ridículo

Mesmo

É achar que o amor

Não se exibe publicamente

Apenas nas frestas escuras

Das noites de intimidade

Onde até a luz se apaga

Para ser,

Enfim,

Mais casto o amor assim!    

 

Tourear “al alimón” é quando dois matadores lidam em simultâneo o touro com um único capote; há também um célebre discurso proferido a duas mãos, entre Lorca e Pablo Neruda, em homenagem a Ruben Dário, descrito por Pablo Neruda no livro "Confesso que Vivi".    

O BOSQUE

Bosque.jpg

O bosque encantado

Fascina-me

Sempre,  

Dele emana aquela luzinha

Que ilumina os corações das almas ilusionadas

Que competem entre si

Pelas lindas histórias orais

Narradas de geração em geração  

Preenchendo o imaginário

Do adulto que vive fascinado

Com a criança dentro de si.

Amoras

Tisnadas  

Protegidas de mãos descuidadas 

Pelos espinhos que guarnecem os ramos

As suas grainhas que acabam se escondendo   

Nos intervalos dos dentes

A polpa que sacia

Essa sede de mistérios

Figos bravios

Eróticos e insubmissos

Castanheiros que se erguem  

Para além da polpa de todas as árvores 

Framboesas que se colhem com enlevo

Para confecionar a fresca e doce compota

Palavras melosas que me chegam ao ouvido

De Nemetona

Bruxas infatigáveis

A deambular pelo ar 

Palavras que enxerto ao longe

Fixas no horizonte

Como se fosse o quadro da escola

Onde apreendi a ler

E nas noites quentes de luar    

Um coro de rãs coaxa nas proximidades dos lagos

Um canavial

Que se ergue na margem do rio

Como se fosse muralha medieval 

Patos

Galinhas d’água

Garças

Ocultos dos inimigos da noite

E, de repente,

Uma velha coruja

Solta um pio

Que me arrepia

Uma astuta e veloz raposa

Caminha infatigável  

Cheirando tudo à sua volta   

E quando a manhã irrompe pelo bosque

Nébulas que me congregam a esperança

O cheiro a erva fresca   

Invade a minha mucosa nasal

Até que me chega essa saudade

Dos tempos em que percorria

Sem exaltação

Mas com total naturalidade

Esse mesmo bosque

Que

Parece já não ter o encanto de outrora!

E já não te vejo

Como antes te via

Minha velha companheira

Solidão

A percorrer os interstícios

Do meu pensamento

Tornaste-te

Agora

O meu pensamento

Que vive solitário

Aprisionado por vetustas recordações

De quando

Me envolvia nas caçadas às crias

Depositadas no interior dos ninhos

Suspensos nas árvores

De quando

Se planeavam assaltos

Às melhores árvores das redondezas

Carregadas de frutos

De quando

Esporadicamente

Dávamos de frente com o velho criado mudo

E fugíamos aterrorizados

Porque temíamos o seu caráter

Que, dizíamos:

Ser mau como as cobras!

Inverto o meu olhar

Miro para a frente

Para o futuro

E já não avisto o velho bosque

Mas sim máquinas

A sulcar sem contemplações

A devastar aqueles solos tão pobres

Que só a cobiça os impede de ver mais além:

- Deixem-nos como estavam antes…

Gritos em desespero  

Que me chegam de quem não ouve

Não vê

Não sente

O futuro

E então

Não consigo esconder a minha emoção

E acabo repetindo a mesma frase:

- Deixem o velho bosque como estava

Dos tempos áureos da minha infância!

NAS ASAS DE UM ANJO

 

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E vós

Senhor

Que me podereis dizer

Sem que eu não saiba já

Dessa vossa assaz amargura?

Plantarei

Mil castanheiros

Senhor

Iguais ao que nos acolheu

Naquele dia de sol tão radioso

Em que vos declarastes

Debaixo de sua imperial sombra

Que nos ajudou a revigorar o amor

Em manhã tão quente como esplendorosa

Fazendo-nos refletir

Sob tão tutelar sabedoria; 

E foi ali  

Senhor

Que vós exibistes 

O coração

Que medra

Nesse vosso peito

E que não me saí da cabeça!

Ainda hoje

Lastimo

A vossa partida para a guerra

E não vos poder

Ter aqui comigo

Mas ó senhor

Meu bem

Que importa viver

Se não vos tenho por perto

Para assinalar

O que diz este louco coração

Que já decidiu:

Se finardes

Nessa guerra

Tão inglória como absurda

Acabarei

Senhor

Por perecer aos poucos  

Aguardando

Apenas

Que o altíssimo

Me leve deste mundo

Tão inglório como injusto;

O vento

Aquele vento suave e delicado

Que me ajudava a conter saudades tuas

Já não me visita

Fustiga as rochas do meu descontentamento

A chuva já não rega a flor

Plantada no meu peito

O sol raiado de vermelho

Parece conter um grito de revolta

E de cada vez que avisto um castanheiro

Um clamor soa no meu interior

Pois já ali não estais

Senhor

Para me ajudar a escolher os ouriços carregados de castanhas

E desespero

Abomino a minha sorte

E já não sei

Se quando vos conheci

Se me alegram mais os dias

Ou se me amargam as horas

Por não vos poder ver?

Partiste

Montado nesse cavalo alado

E passais agora a voar na minha imaginação

E de cada vez que vos tento alcançar

Fugis   

Senhor

Subtil e maliciosamente

Como se estivésseis

À espera

Que eu não pudesses viver mais

E partisse

Para sempre

Nas asas de um anjo!

 

 

 

 

INSANA PEREGRINAÇÃO

 

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Pintura Navio dos Loucos de Hieronymus Bosch

 

Glória aos infernos

Onde todos descemos

Pelo menos

Uma vez na vida

E uma vez desembarcados  

A tão inusitado mundo  

Pressentem-se

Desde logo

Os horrores

Que saltam

Que medram  

Em cada uma das bolhas carregadas de loucura  

Que está para além do entendimento  

Escarnecer permanente

Zombar de tudo

Exultar o choro

A raiva

Até que a insensibilidade se instala

E ali já nada nos espanta 

Quem fica indiferente a este mundo?  

Quem ali chega

Não gosta do que vê   

Naquele caos incendiário   

Mas, com o tempo,

Acaba por se habituar

A tamanha jactância perpetrada pelo mal!

E todos ali vão

Pelo menos uma vez na vida

Derrotados

Derreados

Revoltados;

Quem regressa parece rejuvenescido

Ali  

Nas terras de Belzebu  

Os salmões não sobem o rio

As aves não sabem voar

Os canídeos caminham em duas patas apenas

Os grilos piam até que a voz lhe doa

As cigarras são tão aveludadas que apetece pegar-lhes

O trigo jamais medrará

O mar é tão doce que a água se emulsiona e não se fixa ao corpo

As rãs voam em balões de ar aquecido

Nos castelos moram borboletas coloridas

Nas casas dormem tranquilos veados corredores

Nas montanhas caminham assolapados os amantes

As árvores embrulham-se umas nas outras

O sol explodiu há muitos anos atrás

A lua omnipresente

Alinha-se sempre pela noite

Que ali é intemporal 

Os homens e as mulheres alinham-se

No enfiamento de incendiários

Que estão sempre a avivar o fogo eterno

E a proferir vitupérios

E no meio de uma berraria infernal

Elevam-se irritantes morcegos   

Que lançam-se aterradores sobre a multidão

Que sabe que dali não escapa,

E quem ali fica mais tempo

Ao longo de uma permanência acentuada

Fica sem saber quem é

E parece já não saber sair dali

E mesmo que o saiba

Parece não querer sair!

O inferno não se fez para os outros

Fez-se para todos os que ali caem:

Os que desistiram de lutar

Os insidiosos

Os que não conhecem outra vida;

Mas quem não se reconhece

Naquele mundo  

Foge como o vento

Apaga-se como o veneno

Desliza ansioso como fina areia pelos dedos

Acaba se esgueirando

O destino de quem ali cai

É querer sair

Mas nem todos o conseguem

Permanecendo

Eternos

Insanos 

À espera que a fogueira

Se apague

DICOTOMIA

 

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Que dizer

Amor

Se já não tenho palavras

Que te salvem  

Desse lodo

Que te cerca

E te enclausura  

E que te vai matando aos poucos?

Vives na esperança

De acordares  

O pesadelo

Por fim  

Dissipou-se

E acabou por se extinguir

Milagrosamente!  

Adias, vais adiando,

A tua felicidade

Carente de um plano

E suportada

Em derrotar pelo cansaço  

Um dia vais ver o que agora não queres ver

Todos os silêncios

Que pudeste suportar

Acabaram por te conduzir

A essa estranha mulher

Tão dividida e desapontada:  

Amargurada em casa  

E regozijada na rua.  

 

O PRÍNCIPE DOS LUGARES COMUNS

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Castelo de Neuschwanstein, Baviera.

 

Atazanado pelo amofinado espaço temporal em que alguns personagens vivem o seu dia-a-dia, e que dão a impressão de uma existência venturosa, onde o nada é o principal ingrediente, acabo provocado pelo inenarrável bocejo que se escapule da boca, como se fosse um secreto gaz que se evapora sorrateiro sem se preanunciar.

A luminosidade que emana do ecrã do computador faz-me concentrar toda a atenção sobre a página em branco, que me transmite uma sensação de alvura, como se tivesse caído um forte nevão que jaz no solo à espera de ser pisado por mim.

E, enquanto os meus olhos se acomodam àquele baluarte branco, dou por mim a iniciar o meu trajeto na suave e fofa pista branca, deixando atrás de mim os traços distintivos dos meus passos com que vou galgando o caminho sem rumo que vou encetando no contato com a neve.   

Até que, ao fim de algum tempo, mais a deslizar e a tentar equilibrar-me, do que propriamente a caminhar com firmeza, chega-me às narinas um bafiento odor, que todo o súbdito que se preze sabe, desde logo, identificar, que é um sinal indicativo que o Príncipe dos Lugares Comuns está por perto: roupas impregnadas de naftalina; logo de seguida, surge a sua impagável figura, formosa e renitente, à minha frente, a que se junta a sua real tonsura, digna de egrégia realeza.

E, no seguimento desta minha recente derivação reflexiva, puxam-me os meus sentidos pelo vagar fluir da minha veia artística, que alimenta a minha espiritualidade. Eis-me, pois, no centro desse pindérico reino de tão maligno aborrecimento, e é aqui que dou por mim a magicar no que surge à minha frente; mas vejo mesmo ou imagino ver? É-me indiferente, pois enquanto estou envolvido com uma dúvida do tipo cartesiana surge triunfante um esboço de um pigarrear, daqueles tipicamente nervosos, e que logo se assume como fala, a qual, na ótica do Príncipe dos Lugares Comuns, significa:

- Estás mesmo a pedi-las!

Isto é, uma fluente diatribe, em tom de ameaça, que escangalha o torpor de um qualquer ilustre cidadão, mas que a este Príncipe dos Lugares Comuns lhe faz cintilar os olhos, mofar e ficar escarlate, esboçando o seu ostensivo cartão-de-visita, dignamente representado pelas armas e os barões dos seus nobres antepassados, e que é uma das suas divisas: o simples fazer cria uma inevitável desconfiança; não lhe restando outra alternativa que não seja simplificar com a exclamação:

- Não…

E continuando logo de seguia:

- Está sossegada…não vês que estou a ver um programa muito interessante na televisão…o que pretendes agora é ridículo, isso faz-se mais logo, no leito conjugal, não aqui neste sofá!

E ao Príncipe nem lhe façam chegar, ó santo vitupério da malignidade, laudas impregnadas de criatividade, pois a exímia consciência do Príncipe dos Lugares Comuns, complementada pelo seu apurado espírito crítico, que mistura estados de alma aliados com o torpor totalitário, apenas consegue produzir o lugar-comum, isto é, a página dedicada exclusivamente ao profissional excecional que se preza de o ser, pois quanto ao pendor criativo, só se for para manifestar o grande amor que nutre pela ficção cinematográfica que o ajuda a embalar a carência do seu dia-a-dia e que, inconscientemente, é já como se fosse uma vida para ele, pois tudo o resto resume-se a denodada desconfiança de quem acha que é uma manifesta perda de tempo, uma idiotice, dedicar a sua atenção a algo que não passe exclusivamente pela dinâmica audiovisual, tecnologia, programação, e então, senhores, quando este Príncipe dos Lugares Comuns observa um afago, um beijo, mesmo que seja ao de leve, em público irrita-se sobremaneira e nem lhe falem de escrita criativa e muito menos romântica, que se lhe afigura pomposa, gongórica, tão negativamente sentimental, aí, minhas senhoras e meus senhores, o Príncipe dos Lugares Comuns veste a indumentária mais pesada e surge cotejado de sua malha metálica, eivado por cortante e seca fala e, sem papas na língua, dispara!

A este Príncipe dos Lugares Comuns foi-lhe administrada uma educação patrocinada por uma mãe que andou uma vida inteira a correr para a sacristia, e cuja única ambição era ter o poder, ali onde, além de outros mistérios, se guardam os óleos da unção dos enfermos, de ser ela a lavar as peças mais íntimas do sacerdote, conhecendo-lhe, desde logo, todas as suas agruras intestinais, digo, fraquezas mais privadas, que também os sacerdotes as têm, tão humanas como qualquer um de nós! E este Príncipe dos Lugares Comuns foi alimentando ao longo da sua existência uma parafernália de amputações às mais vis insinuações que antevissem o seu quê de libertinas, cobrindo tudo pelo convencionalismo mais ortodoxo, proferindo corretivos simples e diretos, cultivando os exageros próprios de quem acha que a essência da vida é a eficácia e a objetividade, e que para isso procurou estar rodeado de uma extrema secura afetiva, pois nunca esteve pelos ajustes em perder o seu tempo com demasiada verborreia quando pode usar, e até na sua ótica é assaz recomendável, uma formula matemática para traduzir o pouco que lhe está ou vai na alma!

O preferível, na ótica do Príncipe dos Lugares Comuns, é não dizer nada, é até a manifestação que ele prefere e mais usa, deixando o seu interlocutor na dúvida do que ele quer. E só quando pressente que os sinais são pouco lisonjeiros para as suas pretensões, lá lhe sai um ditote munido de um adjetivozito que, está convencido, é redentor para a seca deixada pela travessia do deserto, que os seus mais próximos se vêm constantemente a braços diante dele, fruto das suas conceções filosóficas mais castradoras, servido pela bocarra de um velho dromedário. Quem dele espere, por mais pequeno que seja, um benevolente milagre que protagonize algum tipo de verborreia, que não passe pelos meros lugares comuns, que se esconda, se disfarce, ou pura e simplesmente se iluda a si próprio, porque o Príncipe dos Lugares Comuns, não condescende, efetiva-se, contenta-se, à boa maneira de um compositor que acabou descobrindo a sinfonia da sua vida, quando ativa aquela função, tão temível como respeitável, e que só os eucaliptos têm nesta vida: secar tudo à sua volta, no seu caso suga com a sua falta de iniciativa e só dá um arzinho da sua graça para censurar quem se digne pôr mãos à obra para executar alguma coisa.  

Longa vida ao Príncipe dos Lugares Comuns grita-se por aí, mas esta expressão está carregada de um fundado temor, pois os súbditos já não o suportam, têm apenas pânico ao desconhecido, e há, contudo, um séquito de aduladores, que se concentram naquela faixa dos que temem as suas reações ou o receio do que venha a seguir, convictos das suas qualidades, mas que não imaginam o que é viver o dia-a-dia sob o jugo do férreo control

JARDIM DO ÉDEN

Jan the Elder Brueghel - The Garden of Eden in the

Tela Jardim de Éden de Jan Bruegel.

 

Essa gota de água do mar

Que eu conservo

Com tanto enlevo

Na palma da minha mão

Já não se encrespa

Já não ameaça

Já nem sequer se escapule  

Pereceu

Lá atrás

No passado;

Mas  

Esse passado

Ainda me persegue no presente  

E continuará a perseguir no futuro

Nada nem ninguém poderá tirar-mo!

Naquele dia

Em que simplesmente ignoraste

Os meus chamamentos  

Ou pelo menos não respondeste

Aos meus apelos

Feitos de viva voz e reiteradamente

Acabei subterrado na areia

De forma tão inconsistente

Como absurda

Para não mais de lá sair.

Eu podia ser a areia

E tu podias ser o mar

Eu podia ser o vento

E tu podias ser o sol

Podíamos ser o que nós quiséssemos

Podíamos ser dois amantes

Montados num cavalo alado 

Ou a caminhar

Pachorrentos

Num dos recantos do jardim do Éden

Ao lado de uma multidão de seres

Tão distintos e tão diferentes

Regando as plantas 

Que exalam finos odores

Que crescem naquele jardim

Mas acabamos longe

Amargurados

Cada qual no seu canto

A suspirar

Com pena de si próprios

A sarar as saudades

No sal depositado nas feridas 

Tentados

A seduzir  

Novamente a paixão

Carregada de luz própria

Que derruba os impossíveis

E une todas as vontades; 

Mas fomos incapazes de regressar ao jardim

Onde tu e eu fomos tão felizes

Onde as palavras eram o nosso sustento

Os nossos desejos vontades

Ao todo que dissemos um ao outro

Ao muito que deixamos por dizer

Mas falamos tanto

Ensandecemos até    

Desejamos tanto  

Procuramos loucamente

A verdade que nos perseguia

Oculta

Ou às claras

Chegamos até a fazer amor

Nos locais mais improváveis

À luz do dia

Debaixo dos olhares das pessoas que passavam apressadas

E que de tão inusitado

Não entendiam a loucura que tomara conta de nós!

Naquele recanto do jardim

Tão secreto como improvável

Apropriei-me dos teus finos lábios

Sorvi essa tua boca húmida

Carregada de desejo  

Tão ávida da minha

Mas foi por pouco

Separamo-nos

E ficamos a suspirar

Pelo mar

Pela areia

Pelas noites quentes de verão

A olhar extasiados as linhas da mão

A surfar nas ondas da paixão

Que esse mar calmo

Tanto nos quis dizer

E nós não o soubemos interpretar!

Hoje…

Ficou apenas o mar e a areia

E por isso digo para comigo

Tu és o mar

Eu sou a areia

E todos os dias nos envolvemos

Nesse leito silencioso da paixão!  

 

 

 

 

 

SENHORA DOS MEUS OLHOS

6-7.jpg

Senhora

Vós fostes

Outrora

Quem me iluminou a alma

Quem me devolveu a ilusão

Que carreguei desde a nascença   

A uns olhos banhados

Nas águas da esperança,

Por isso não vos ides

Sem que os contempleis   

Pelo menos num derradeiro instante! 

Rogo-vos

Que não me abandoneis

Assim desta forma tão pueril   

Pois

De cada vez que vos contemplava  

Clareava-me a íris  

E o verde se atrevia a ficar  

Resplandecente e magnético  

Como o entardecer raiado

De um dia quente de verão!

As palavras já não me querem

Eu também já não as quero

Para quê palavras

Se sinto de ti

Uma tão grande ausência

Como um justificativo

Para não me dizer nada

Apenas fugindo  

Simplesmente fugindo  

Com a frieza para ergueres  

A escultura da ausência 

Escapulindo-te à glória  

À doce vida que poderias ter

E que

Simplesmente

Acabaste por não querer;   

Disseste-me certa vez

Que vieste ao mundo

Para fazer o difícil

E não para urdir o fácil

Ora,

Fugindo-me

Fazes o difícil

Não o fácil

Mas haverá um dia

Em que já nem mesmo a fuga  

Te fará volver à vida

Quando os negros corvos

Num fim de tarde cinzento

E com a alegria estampada no rosto 

Sobrevoarem a tua casa

Para te dizer que já não és

Dali

Nem daqui

Gritando em coro

De vida e cruel voz

A história de um homem

De distintos olhos verdes

Que muito amou  

Mas a sombra já se diluiu

E a áurea

Que aqueles olhos verdes transportavam

São pó

São história

Carregada de misticismo 

E os vastos amores

Que não se fartava de louvar    

São já gravuras de um livro

Paginado no interior de cada uma das paixões;

Então

Senhora dos meus olhos

Porque não me olhais

Mesmo que seja

Na derradeira alvura

Condoída de esperança?

 

 

 

LIBÉLULA

 

Curiosidades-da-Libélula.jpg

Sorrio

Num dia de luz resplandecente

Deambulo  

Voo

Como uma libélula:  

Abrandando

Acelerando,

Quase tocando

No infindo arvoredo

Que se ergue à sua frente

Que parece a velha muralha fortificada 

Em busca de uma áurea

De felicidade

De prosperidade

De coragem  

E eu

Ali no meio

Não me deixei tolher  

Nem acovardar

Pelos ditames…

Rodeei o que de mau

Se me deparava

No cimo da estrada

Entretive-me a observar o declive do terreno

Entrecortado

Pela imagem da feliz libélula

Que me saudou uma e outra vez

E quando esvoaçou

E ficou mais íntima

Tive a sensação de estar a ver um daqueles aparelhos

Que já fazem parte da história da aviação:

Umas asas gigantes

Um corpo

Longo

E delgado

Que parece frágil

Mas faz das fraquezas forças

Voando

Esvoaçando

Projetando-se no ar com aquele enorme olho

Que lhe dá o nome de tira-olhos!

Mas hoje

Esta libélula

Não sei porquê

Deixou-me em choque  

Trouxe-me

Deslizando como um delgado fio de areia

A solidão desesperada;  

Deambulei

E deparei-me

Gravado nas várias lápides

Com as últimas palavras

Dos que se finaram neste mundo

E foi então que me apercebi  

Que a libélula

Se recusou a entrar

No cemitério

Tórrido

De pedra  

Sem sombras nem descanso; 

E quando calcorreava o terreno enfileirado

Por sepulturas

Chamando

Repetidamente

Pelo teu nome

Mesmo sibilando

Nessa tua letra inicial

Não me respondente

E foi então que me apercebi

Que Já não estás ali

Nem aqui

Já não estás em parte nenhuma

E já nem a libélula

Te quer próxima

Ela que tem o dom da felicidade!  

Vives

Agora

No pó que se ergue

Soprado pelos ventos

Aborrecido

Entediado

Entrementes 

Deslocando-te

De árvore em árvore

De folha em folha

Fixando-te unicamente no verde

Que se escancara à tua frente  

Que incendeia esse teu olhar,

E não quer

A libélula

Viver assim

Voando simplesmente   

Mas sim refugiar-se  

Numa tranquila sombra dos dias mais quentes

Para amenizar a paixão

Que te serpenteia  

Como a libélula!  

O MEU VILAR DE MOUROS

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Final de agosto de um verão memorável do ano de 1982.

O comboio a abarrotar partiu da linda cidade de Viana do Castelo a meio da manhã, para percorrer o último terço do trajeto até à formosa vila que tem seu nome no caminhar…

Na veneranda composição prateada seguia a irreverente juventude da época, expetante para assistir ao Festival de Vila de Mouros. Porém, poucos se recordavam do primeiro e, até esse momento, único evento do Festival ocorrido no ano de 1971. De vez em quando sentia-se um forte odor à droga da época: liamba!

O olhar do rapaz ia eletrizado por uma loira de olhos azuis brilhantes, de rosto pintalgado de sardas, que ia acompanhada por uma rapariga de pele assaz esbranquiçada e cabelo preto que, dir-se-ia, tudo indicava que havia sido escurecido artificialmente. A loira, logo no início da viagem, na imperial Estação de São Bento, acenou um olhar ao rapaz, sorriu ligeiramente e não mais tirou os olhos do rapaz de olhos esverdeados, de estatura pouco habitual para o Portugal de então, seco de carnes e de olhar sonhador!

No entanto, a tarefa não se anunciava fácil para o jovem pois, para além de ter de se aproximar da loira, que distava cerca de cinco metros dele, havia que perceber que língua a rapariga falava, embora o inglês, já na altura, fosse a língua universal. E alguma timidez do rapaz, a ousadia da loira e por último a distância foi adiando a aproximação, o que significa que viajara do Porto a Viana do Castelo, mais de uma hora, e mantinha-se apenas pelo olhar, os sorrisos, e o rapaz incapaz de se aproximar porque não se sentia à vontade para avançar, naquele emaranhado de gente jovem, que se olhava com curiosidade, para se apresentar à loira que só faltava vir na sua direção, até porque a partir de certa altura ele começou a aperceber-se que as duas pareciam falar dele, sorriam, e a loira parecia aguardar unicamente pela investida do rapaz.

Por fim, no final da manhã, anunciou-se a estação de Caminha, o local de destino da viagem de toda aquela juventude.

Logo que saiu do comboio o rapaz percebeu que seria tarefa muito difícil, para não dizer impossível, alcançar a freguesia de Vila de Mouros, isto porque nas imediações da estação concentrava-se uma multidão que aguardava por um transporte que a pudesse levar até ao recinto onde decorreria o festival. E, então o rapaz, à boa maneira portuguesa, aproveitou o aglomerado e uma certa dispersão da atenção da multidão, mais concentrada em conseguir transporte para o recinto do festival em Vila de Mouros, para finalmente se aproximar da loira e da amiga. Saudou as duas e esboçou umas palavras em inglês, e a primeira regozijou e respondeu em tom entusiasmado, e não mais se separaram no decurso do festival.

W., a loira, era uma cidadã tedesca que ouviu falar deste festival e que, desde logo, lhe pareceu um evento muito original e interessante pois abarcava um conjunto diversificado de formas de expressão musicais que a ela, na altura estudante de música, lhe parecia digno da sua comparência. E sem perder tempo, meteu-se com a amiga, por essa Europa fora, a calcorrear os trilhos ferroviários que a levassem até ao Festival de Vilar de Mouros, uma espécie, no estilo do evento, não na programação, de um Woodstock à portuguesa porque ele privilegiava praticamente todo o tipo de música mais ou menos sofisticada, do popular, ao rock, ao jazz.  

Por fim, os padeiros, distribuidores de bebidas, enfim, tudo os que tinham uma carrinha que desse para carregar homens, começaram a transportar aqueles milhares de jovens até aos terrenos do festival. Hoje seria muito mais fácil chegar aos terrenos onde se realizava o evento, teria, enfim, um conjunto de valências, que passariam pela organização do transporte da estação dos caminhos-de-ferro de Caminha até à linda freguesia de Vila de Mouros, mas na altura era tudo um pouco bizarro, sem grande organização o que dava azo ao desenrasca e à improvisação.  

O rapaz foi transportado, juntamente com W. e a amiga, numa carrinha de caixa em madeira, coberta por uma lona esbranquiçada, propriedade de um dos padeiros, e os jovens que seguiam no interior da viatura, a sorrir, excitados e agarrados à armação que era quem interiormente suportava a lona, que esvoaçava à velocidade que o condutor conseguia imprimir, encostados uns aos outros para não se estatelarem, sobretudo nos trajetos mais sinuosos em que a carrinha parecia serpentear por uma estrada de montanha, e que podia apenas ser imaginada pois a construção em lona impedia ver o terreno que iam calcorreando. Enfim, pareciam animais encurralados!

O rapaz teve W. nos braços, esboçou palavras sentidas de amor; entrecortaram-se de citações poéticas, olharam-se de frente, beijaram-se avidamente, deixaram no ar o testemunho exótico das longínquas estrelas, que teimam em cintilar indefinidamente, e tão presentes nas noites de verão, jurando mútuos desejos que aqueles sóis os acompanhariam para sempre nas suas vidas, e que quando os avistassem era o sinal do reencontro dos dois. E a verdade é que ainda hoje, o já homem, quando observa as estrelas, entranha-se uma saudade enorme de W., cidadã tedesca!

Mas há algo que não necessita da noite, das estrelas, e que continuamente vem à memória ao eterno rapaz, aquela entoação dos erres de W., como aquele pronunciar Vilarrr de Mourros, como também não lhe saí da cabeça um impaciente público, que aguardava pelo início do festival, e por volta das 22:30 horas irrompeu pelo palco um homem de provecta idade, de pequena estatura, mas decidido, pegou no microfone e exclamou:  

 - Loucura! Loucura! Loucura controlada... sem medicamentos... sem camisas de força! Loucura controlada pela vossa inteligência e pelo amor! Adeus, adeus... obrigado, obrigado!

O rapaz veio a saber mais tarde que este arrojado homem se chamava António Augusto Barge, era médico de profissão, e um dos entusiastas da primeira hora deste festival em 1971.

E na despedida o rapaz ouviu W. dizer:

- Auf Wiedersehen mein Prinz…

E retribuí-lhe com um:

-  Auf Wiedersehen Prinzessin!

 

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