Furiosamente Consumindo as tuas gloriosas energias
Para acabar te encurralando Na altiva muralha Que se ergue Por entre as planícies Latejadas de oliveiras Por onde pastam As vagarosas ovelhas Que soam os chocalhos Quando esgaçam as finas ervas
Com seus dentes carcomidos E de lá Dessa fabulosa construção militar
Acudias
Em certos dias
A um dos seus inúmeros resguardos
E bradavas ao vento Que não havia dia
Que não ouvisses a incondicional voz Do tenor luso: Tomaz Alcaide Que veio ao mundo Na tibieza de um frio dia Que antecede os idos de Março. De tanto escreveres De tanto fumares De tanto pensares Pelas insensatas polémicas Que eram a chama Da tua alma inquieta Acabaste os dias Apoiada no fiel Sebastião Esse indefetível cachorro Que nunca te abandonou! O que a glória te trouxe De forma tão precoce e lasciva Afinal Amargurou-te tanto a existência Que acabaste abatida Pela ínclita inveja Que é a epiderme Que há séculos guarnece A alma lusa!
"O sol domina no mar, e principalmente na terra; a lua domina na terra, e principalmente no mar: e estes são os dois elementos em que vivem e negociam a vida os homens." Padre Antório Vieira.
O sol
Exangue
Crismado no seu apogeu diário
Que chega a ser brutal no seu empenhamento Mas há dias assim
Em que não consegue resplandecer
Torna-se animal de sangue-frio E parece hibernar
Trazendo os piratas até à praia A aguardar na areia húmida Que o mar volte
Outra vez
A ser azul E não um verde que se entranha Que se confunde Com a neblina que inunda as redondezas! O mar Fervilha de emoção Germina vaidades Mais ou menos fúteis A quem escreve na areia Frases palavrosas Que se assumem profundas Mas que acabam ténues Pois o mar Vai e vem
Até à areia onde se exibem os vocábulos Apagando-os Desse caderno feito de milhares de grãos de areia Que parecem acercar-se do infinito Mas não passarão De um medroso finito Sem se assomar Aos castelos que Ao longe
Enquanto percorro a ladeira e vou no encalço Triste e a reviver Esses teus olhos lacrimejados
Que
As novas que me foram chegando
Se foram cerrando sucessivamente
Até que se bloquearam em definitivo
Dou-me conta que A voz que se foi enfraquecendo O apetite que se foi esfumando A saliva que se foi perdendo
Os dentes periclitantes E cada vez mais oscilantes Já não mordiscavam o pão E até já não mostravam Esse teu, outrora, sorriso aberto e franco Que tanto enchia os corações das pessoas A indisposição que acabou sobrepondo-se
Em permanência A minar o teu débil entusiasmo
A água, outrora, tão apetecida
Queimava as tuas entranhas O teu estômago descera até aos infernos E começaste a passar os dias A desejar viver Mas fixo na ideia De idealizar o mundo quanto partisses: E foi numa dessas deslocações até ao teu interior mais profundo
Que voltastes a olhar o rio da tua infância Admirar a pureza das suas águas Onde tantas vezes te banhastes Gritaste, riste de sorriso aberto Te silenciaste envolto na suas águas A tentar capturar um peixe E sempre Sobretudo nestes últimos tempos Te advinha à memória Aquela narrativa do padre que
Uma e outra vez Narrava o episódio
Da moça enraivecida Que vingando-se do consorte fugidio Se lançou pelos pedregulhos Até que Desfeita e defunta Embateu nas águas esbranquiçadas Nos funestos rápidos do rio E desapareceu ... Mas tu
Já sem a paz no corpo Continuaste a olhar ao espelho E foste dando conta que os ossos Enrijeceram-se e colaram-se às peles do teu rosto Eras agora um empedernido busto Que os de fora já não conheciam De repente, Os teus olhos encerraram-se em definitivo Batia, ao de leve, ainda, o teu já fraco coração Que ainda te irrigava o cérebro E era assim nesse tremor provocado pelos químicos Que adormecias profundamente E sonhavas muito Não querias saber do presente Olhavas apenas para o passado Quando o mundo para ti Era a pacata vila Para ti enorme Que mira altaneira Para o rio lá longe Como se fosse uma língua de prata Ladeada por entre montes e vales... Por fim repousastes Na terra que te viu nascer À sombra de uma velha arvore Que será agora a tua companhia eterna Até que o pó te leve Até à morada Onde todos temos um lugar!
Ontem eras enorme Venerada Escondias a minha timidez Como um velho carvalho Que abriga as aves Que descansam ao remanso Depois Passaste a ser meu colo Nas agruras da vida Enrugaste Silenciaste-te Até que numa manhã Partiste cansada de lutar Só para estar Vigilante e terna Com a tua querida prole... Hoje És uma luz cintilante Uma estrela Presente