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Artimanhas do Diabo

Artimanhas do Diabo

AZUL, AINDA AZUL

Azul mavioso

Azul coroado

Azul da cor do cobalto

Azul

Claro ou escuro

Sempre azul

Para que te veja azul

Para sempre

Nos meus dias de êxtase;  

Olho-te

Miro-te  

E distingo

A candura de um pensamento

A vontade envolta em paz

Uma miscelânea

De vozes ao longe

Parecem súplicas

Será para não esquecer as origens?

Um dia bonito e indomado

No meio das dunas

O vento forte na praia

Bate-me de frente

Arrefece a minha ansiedade  

Molda-me os desejos;

O dia acordou azul

O dia adormecerá azul, ainda e

Veraneio!

A FÁBRICA

 

 

Cercam-me as agruras óbvias ao iniciar uma página, esta página, pois não sei onde ela me levará… tenho em mente expor sobre o que habitualmente dificulta o ser humano de raciocinar, de forma a preservar clareza e transparência. E o que impede de o fazer? A alienação.

Não sei se o meu próprio raciocínio me acompanhará em doses iguais enquanto escrevo estas palavras. É que pode mesmo acontecer que eu pense, escreva, pense que escrevi aquilo que pensei, mas não escrevi nem registei, mas apenas aflorei levemente e sem inspiração uma qualquer parte da minha vida ou da vida dos outros! Mas vou tentar, vou tentar, mesmo que no final diga:

- Não era nem bem isto que eu queria escrever…vou apagar e enviar para o caixote do lixo!

Mas se através da leitura te chegar ao conhecimento este texto é porque ele afinal não teve um destino infeliz e malcheiroso de um recipiente para guardar o restante lixo, mas, pelo contrário, alcandorou-se a uma existência elevada, nobre, destinada a fazer-nos pensar na vida que nos tocou viver.

A Fábrica dista uns escassos quinhentos metros da casa. Mesmo assim desloca-se de automóvel para trabalhar na Fábrica. De manhã, levanta-se cedo, escuta as notícias na rádio, alegra-se ou entristece-se consoante ouça, respetivamente, boas ou más informações nas ondas radiofónicas.

Depois de vestir a roupa que usará na Fábrica, desloca-se à gaiola dos pássaros para lhe retirar o plástico que os aqueceu durante a noite. Entretanto, o dia começa a nascer: um tímido sol teima em surgir no horizonte, mas mesmo assim os primeiros raios que o sol irradia permitem animar a gaiola com os primeiros cantos dos pássaros. É o começo do habitual deleite dos pássaros junto dos comedouros, repondo as forças de uma noite sem comida. Ele não fará como os pássaros, que comem logo pela manhã, enquanto que ele não comerá nada em casa antes de sair para trabalhar. Comer, comerá na Fábrica, junto a uma máquina daquelas que servem café, café com leite, chã, ou sumos e umas sandes de fiambre, queijo ou bolos. Não consegue tomar em casa o pequeno-almoço logo pela manhã. Habituou-se a fazê-lo na Fábrica, junto dos colegas que também trabalham na Fábrica. Junto da máquina, todos os que trabalham na Fábrica, se reúnem para comentar o dia, sobretudo no que ao futebol diz respeito, tema de preferência dos que trabalham na Fábrica, sobretudo dos homens. Como eles adoram falar, antes de “pegar” ao trabalho na Fábrica, sobre o seu clube de predileção! Aquela transferência exclusiva do jogador, que antes estagiou na Fábrica, para o clube B ou A, ambos patrocinados pela Fábrica com a publicidade que usam nas camisolas.

Mas o tema também se pode estender às mulheres que trabalham na Fábrica, aquelas que dão mais atenção aos homens que, igualmente, trabalham na Fábrica. Que se insinuam, que ameaçam os homens pela sua sexualidade pujante e definitiva, mesmo que escondida debaixo daquelas batas que a Fábrica fornece aos que trabalham nas suas instalações! E depois, claro, ainda há aquelas que não perdoam uma incrível e rápida escapadela nos balneários da Fábrica, num tenaz, extasiado e silencioso encontro de corpos que se unem numa parte, se envolvem nos braços e que, muitas vezes, nem tempo têm para se beijar! Depois, cada um deles abandona, em momentos diferentes, o balneário da Fábrica, silencioso, cabisbaixo, e pronto a retomar o trabalho na Fábrica. Mas o falatório na Fábrica, sim porque ali também há gente muito arguta, marcará, sem dúvida, as conversas dos trabalhadores da Fábrica. As mulheres que trabalham na Fábrica também se envolvem em conversas antes de “pegar” ao trabalho na Fábrica. Mas estas reúnem-se num canto, numa roda onde se encontram somente mulheres.

Assim reunidas, contam, antes de iniciarem o trabalho na Fábrica, as dificuldades da vida: marido desempregado, filho doente ou crápula que não quer estudar. Mas na Fábrica não há lugar para sentimentalismos maiores do que o que a Fábrica permite. É que ali é um lugar importante na sociedade! Produz-se uma quantidade de produtos essenciais à sociedade, esse é que é o grande segredo da Fábrica.

A Fábrica tem um odor a tinta forte e produtos químicos, mas quem ali trabalha já não pode viver sem aquele cheiro. Inclusive, aqueles que se reformam, decorridos mais de quarenta anos de trabalho, quando regressam à Fábrica, dizem sempre o mesmo:

- Ah…este cheiro, que saudades que eu tenho disto.

Mas a Fábrica continua a produzir produtos, a fazer e a refazer vidas, carreiras e linhas de atuação… tem mesmo uma grande necessidade, a Fábrica, de afirmação, de querer, de perseverança, de conduta, de exemplo! É que a necessidade que a Fábrica apresenta e exibe orgulhosamente é imperiosa, absolutista, compulsiva, não há ali lugar para a mediação da razão, do bom senso, do equilíbrio. Só existe Fábrica na estrita razão de ser da vontade da prevalência dos sentidos, tudo o mais é excelso e cândido na apresentação de uma realidade que se não confunde com o ideal.

Na Fábrica há bons e maus exemplos! Há empregados enormes, cuidadosos, esforçados, transcendentes, obedientes, capazes de mudarem o seu próprio paradigma de pertença a uma classe social baixa e insolvente de conhecimentos, que levam vidas desgraçadas às costas, um autêntico calvário suportado pela dor, pelo sofrimento, crença num amanhã melhor, mas que os leva a acreditarem que poderão suportar tudo para melhorar as suas vidas; tudo com o apoio incondicional da Fábrica, o verdadeiro suporte para todas as contrariedades que a vida dá a todos os que nela trabalham. Mas a primeira coisa que a Fábrica pretende dos seus trabalhadores é que façam aquilo para a qual técnica e moralmente estão qualificados, produzam mais e melhores produtos que sejam do agrado dos consumidores, que encham os cofres da Fábrica, que levem e elevem o nome da Fábrica aquém e além-fronteiras!

Meteórica e universal a Fábrica adora o sofisma, a falácia, a urdidura, a discussão, os males entendidos, as meias palavras, o falar por sinais identificativos de poupança (o coiso, aquela, esta, sim, não, talvez) de palavras e afetos, que se querem sobretudo muito ténues e parcos em relação ao sistema que rege a Fábrica, e muito atentos e expansivos do que a Fábrica pretende considerar na análise concreta do que é a mais-valia: de que é feita, para que serve e introdução de um conceito novo na exploração do trabalhador… mas a Fábrica não se rege só por concretizações, por aneurismas sociais, por ajudas aos mais necessitados, ela também se dirige aos doidos, sovinas, que se querem fazer passar por isso mesmo, palermas, infantis, desgraçados, conceptualizados em livres e transparentes de coisa nenhuma e recusa-se em aceitar um toxicodependente, portador de Sida, deficiente visual, paraplégico ou limitado pela insuperável ausência de inteligência para o bom desempenho de uma atividade profissional!

A Fábrica tem outras preocupações. A Fábrica adora Política Externa. A Fábrica adora Economia. A Fábrica adora História. A Fábrica adora Filosofia. A Fábrica adora Sociologia. A Fábrica adora Teologia. A Fábrica… a Fábrica… a Fábrica…adora, adora, adora, que a adorem e que lhe tenham temor cá na Terra, por isso é que a Fábrica desafia a autoridade Papal, o Cardeal, o Bispo, o Padre, porque não teme os castigos ou as indulgências que lhe são lançadas por estes sincreticamente ou não. A Fábrica existe e ponto final. Mas a Fábrica também serve para reduzir lutas de classes a lutas de poder entre sindicalistas que agem por impulsos partidários e que mascaram com supostas preocupações que afetarão os direitos dos trabalhadores.

A Fábrica existe e pronto!

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