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Artimanhas do Diabo

Artimanhas do Diabo

DIZ-ME LÁ TU DO QUE EU SOU FEITO?

Quem me dirá

Do que sou feito?

Quem me dirá

Do porquê da minha existência?

Quem me dirá

Quem sou eu afinal?

Certamente

É indubitável  

Que quem me responder

De forma tão perentória e convincente

A essas questões

E outras que, enfim, se afigurem pertinentes  

Me dirá também o que essa pessoa é

Porque não é à toa que quem o diz:

Sabe, do que fala

Sabe, do que expõe

Sabe, do que extrapola

Sabe, do que é feito

Sabe, que matéria o compõe

Eu e ele;

Mas,

Dizer

De uma certa maneira

Do que eu sou feito

É, pois, dizer

De que essa pessoa é feita

Pois sabe do que fala

Sabe do que é capaz

E sabe dizê-lo de uma maneira tão clarividente

Que sabe mesmo do que eu e ele somos feitos!

Mas esta arreliadora mosca

Que acabou pousando no ecrã do meu computador

Não me larga

E por mais que vá agitando a mão

Como se fosse uma extensa e corretiva cauda de um bovino 

Para a fazer desaparecer de vez

Do contexto em que me insiro   

Vejo-me impotente

Para a fazer debandar

Para a fazer desaparecer

Do alcance da minha visão

E então, derrotado pela minha incapacidade

Ponho-me a observar o inseto  

Que se agarra com as múltiplas patas ao ecrã

E percorre-o a uma velocidade estonteante

De repente, suspende a correria

E põe-se a esfregar as patas da frente uma na outra

Retesa as asas transparentes

E vejo-a ali por cima das palavras que vou escrevendo

Inspiradas pelo contexto em que estou inserido

E sinto que o que escrevo, para a mosca, é indiferente, dispensável mesmo  

E não se mostra em nada interessada

E muito menos fascinada

Com o que vou escrevendo,

Mas será assim tão linear?

Ou será mesmo o calor do ecrã que a aquece

Que a faz querer tanto estar ali

Nestas noites já mais frias do outono

 E se sente tão atraída

Que é incapaz de abandonar

Mesmo que isso possa significar a sua morte…

Mas diz-me lá tu,

Ó mosca sem vergonha

Ó mosca deslavada

Ó mosca divertida

Ó mosca afoita e corajosa  

Pois te exibes assim à minha frente

E que nem sequer foste convidada

Se o sabes

Se sabes mesmo

Diz-me, então, de que sou feito?

Já que as pessoas parecem temer dizer algo sobre mim!

 

AS PALAVRAS

A Floresta Das Palavras

É a minha casa

O meu porto seguro

O meu destino diário  

Mas não me perguntem porquê?

Sei que aí regressarei 

Sempre 

Mas não em solitário 

Acompanha-me a música de tons Jazzísticos

E os fantasmas que puluam, em cada dia, da minha vida...

Previamente, apronto-me

Dou início à longa e difícil caminhada

Calcorreio os primeiros metros

Percorro a primeira centena de passos

Que me levarão a penetrar

No matagal extenso, fechado

Por vezes até perigoso

Porque é sempre uma aventura ali regressar;

As palavras jorram na profusão dos meus dedos

Que tateiam o teclado

Palavras furiosas, apaixonadas, reais

Por vezes sábias

Celestiais

Delirantes

Surgem impressas no ecrã

E ao vê-las 

Junto-as umas às outras

Como se estivesse a jogar uma partida de dominó 

E logo surgem as frases

Umas cheias de sentido

Enormes, profundas, opressoras ou libertadoras  

Outras que acabam por serpentear a própria razão

E até eu

Quando me releio 

Me ponho a vasculhar para encontrar um sentido àquilo

E dou por mim, muitas vezes, a questionar-me:

Donde me vem tanta palavra?

Donde me vem tanta ideia?

Donde me vem tanta sede pelas palavras?

Donde me vem tanto apetite pelas frases?

Para logo concluir :

Mas são as palavras que transmitem conceitos

São as palavras que gizam significados

E é, muitas vezes, aquela palavra em concreto

Que  acaba por serenar as nossas frustrações

Equilibra e repõe os nossos sentidos no exato lugar 

Por isso,

As palavras

Tocam-me bem fundo

No secreto local onde residem os afetos

Como se cada uma delas

Fosse uma pessoa a quem muito quero…

E que melhor sinfonia

Poderá ser interpretada 

Do que aquela onde as palavras

Dão,  afinal

Grandes lições de vida

Certezas

Cuja única certeza

É não ter certeza nenhuma!     

QUERO REGRESSAR A TOLEDO

Piso o solo empedrado

Sentir a calçada medieval

Ancorada em ruas estreitas e circundantes

De Irresistível encanto

Povoadas de façanhas

Como se estivesse a pisar solo sagrado!

Casas simples

Amparadas nas narrativas

Árabes e judaico-cristãs  

Abundantes e multitudinárias

Que soam convincentes!

Toledo

Reencontro no Cerro del Bu

Com o Tajo ao lado

De cor Esverdeada

Disciplinado

Cadente 

Entrincheirado entre duas colinas  

A muralha que apazigua

Com interminável força

A Porta de Bisagra

A Porta do Sol

 Toledo em toda a sua vista

Toledo que nos olha com soberba

Acidez e preconceito

E vou andando de rédea curta

Pelos ínvios caminhos

Desta cidade

Árabe

Cristã

Judia

Palco de uma incendiada batalha

Que terminou com a destruição

Do seu belo Alcazar;

Mas toledo

Não se compadece com o viajante

Este é que acaba por se comover

Com Toledo

A sua rica e vasta história

Cheia de traições

Ablações

Sofrimentos 

Humilhações

Desforra bruta

Dos nacionalistas aos republicanos!

Nos dias mais quentes

Em Toledo

Dançam borboletas

Como musas

Como tágides

A deambular de um lado para o outro

E são elas, as mariposas,

Que nos evocam os gritos

Dos que tombaram fuzilados  

Encostados às paredes de insignes monumentos

Em nome da liberdade 

Mas aquela frase que li

À porta de um quartel de Toledo

Não me saí da cabeça:

- Tudo por la pátria!

Quero volver a Toledo

Admirar a sua catedral

Entrar nas minúsculas livrarias

Inspecionar as armaduras

Admirar as espadas

Redescobrir o ladino que por ali soa

Encontrar-me com o Golem

Beber um chá de menta

Comer uñas tapas

Toma uña copa

Deixar-me envolver

Pelo doce e musical

Idioma castelhano

Se possível acompanhado por uñas chicas

Bien guapas, guapíssimas  

Perfumadas

Frescas

Desejadas

Que, ao final da tarde, desfilam nas múltiplas calles

Por isso

Eu quero

Eu quero

Regressar a Toledo…

Antes que seja tarde,

“tudo por Toledo”!

 

 

 

 

 

MAR

Move-se a água

De uma forma solene

Medonhamente suave

Quando olhamos para a linha do horizonte

Como se estivesse a absorver  

De uma só vez

Todos os nossos pensamentos  

Incessante, o vento,

Ali se confunde com o mar,

Vai-me interpelando permanentemente  

Estrondoso e afogueado

Quase parecendo um jargão

Que se expressa num sopro impercetível;

Não se comovam com as palavras

Não se gastem com as ilusões

Não temam as consequências

Não se fiem nas aparências

Não se amofinem nos dias

Em tudo semelhantes

E que parecem banais…

Deixem que a espuma

Converta a maresia numa bênção

E, naqueles pequenos charcos marinhos,

Vejo-te à mar

Assustado

Apressado 

E a bater em retirada da costa

Sem cuidar dos seus

Nesse microcosmo marinho

Rodeado de pequenas lagoas

Cercadas de pequenas rochas

Que parecem desfiladeiros 

Onde se avistam pequenos peixes

Certos moluscos

Cerceados da liberdade

Mas que, 

Como a maioria dos homens,

Têm pavor das profundezas do mar;

Mas o mar, esse mar

Que tanto nos atraí

Quando se veste com o seu lindo fato azul

Assusta-nos quando se farpela de cores mais acinzentadas

E que não esmorece assim tanto

Quando o sabemos rodear

Quando gostamos verdadeiramente dele

Quando conhecemos todos os seus segredos

É, afinal, o mar que só conhece a ilusão

De um mosaico colorido

Que os nossos olhos

Tanto perscrutam;

E o mar deixou-se levar pelo pescador

Deu-lhe o descanso que ele tanto merecia

Mas não me deixem permanecer só e junto só mar

Temo que voltarei para ele

Para nadar livremente até às profundezas

Para me esconder das vergonhas que passei

De alguns homens;

O mar é esse caldo temperado

Que sustenta e sustenta-se dos seres que nele vivem

O mar não quer voltar à terra

Quer permanecer lá onde está

Encostado à linha do horizonte

SOB A BATUTA DA DUREZA DAS PALAVRAS

Funesto e horripilante dia em que te vi

Tu eras snob

Sofisticada

A mais vertical e espampanante

De olhar meloso

Cintilante…

O teu olhar era agressivo, sulfuroso

Vilmente ardiloso  

Mostravas uma respiração cadente e apressada

Enfim, via-se em ti

Alguém com um interior afogueado 

O tipo de pessoa 

Que se abastece

Nas leiras dos outros; 

Não o querias dizer

E muito menos admitir

Mas eu intuía

Que, por baixo dessa tua postura de soberba,

de cada vez que te observava

Via que medrava

Uma implacável crueldade 

Como a de um felino:

Graça  

Voracidade

Simulação

Os três tércios taurinos

Comos e fosse uma excitante tourada a pé;  

Nessa tua pressa em me rodear 

Parecias um daqueles repteis rastejantes

 Que espera paciente pela presa…

Dizias cousas belas e alucinantes

Palavras celestiais que,

No imediato,

Eu não conseguia ser indiferente

E me enchiam

De uma enorme paixão

E era aí que eu via em ti

Um êxtase

Um furor

Uma força interior

O desespero 

De quem não vê chegar o dia

Em que ocupará os interstícios

Da colossal solidão em vive;

Enlevavas-me com os teus diálogos

Exultava com as tuas eloquentes palavras

Que trespassavam o discernimento

E, eu, enredado nessa teia

Não me dava conta

De tudo o resto que havia em ti

Que estava lá

Mas o que eu via

Era aquilo que eu parecia querer ver

E não o que julgava que estava lá em ti

Afinal uma ilusão…

Chegou, porém, o dia em que me libertei desse jugo

Passei a respirar melhor

A viver mais prazerosamente a espuma dos dias

Tornaste-te dispensável

Passei a ser, outra vez, aquele ser

Que caminha de cabeça erguida

Que olha em frente e vê

Os cines voando em direção ao norte

Sem receios da aventura e da distância

Seguros da paixão única e eterna

E uma fina camada de gelo se derreteu 

Perante uma banal curiosidade

E acabei por me tornar jubiloso

Exultante até 

Questionando-me

Desta minha paixão

E, já consolado, gritei-lhe:  

Não me esperes que não te ouvirei

Prefiro escutar o canto dos rouxinóis

Que celebram a beleza da vida

A pureza de uma solidão

Enredado na espessa camada de árvores

Que rodeiam as águas calmas de um rio

Ouvir a saudade

Que parece emanar das suas lindas belíssimas que interpreta

E apesar da memória dos homens

 Da evocação dos factos da vida

Das circunstâncias e das pessoas que vamos conhecendo

Haverá um dia em que

Tu já não estarás na minha cabeça

Viverás apenas no firmamento

Entre os neurónios

Que preencham as cabeças dos outros

Não na minha!

UM DESEJO CHAMADO ELÉTRICO

Um dos capítulos de “O pátio das memórias” tem o título supra assinalado.

Partilho-o, com gosto, e como forma de homenagear a musa e inspiradora Prima com uma existência tão efémera, preferiu viver sôfrega e embriagada do entusiasmo juvenil do que empanturrada em pastosos dias a viver de memórias!

 

Calhou-lhe uma vida curta, mas fulgurante!

Passou a sua curta existência em movimento cadenciado ao som de músicas de batidas fortes, ditas de alternativas.

De passada ávida, lesta nos gestos, nervosa, mas decididamente firme, levantando subtilmente os pés como se fosse um experiente peregrino de Santiago a calcorrear seguro os caminhos até à catedral, nos trilhos de um desejo chamado elétrico!

Embora sempre a correr, a saltar, a palmilhar ínvios desejos, percorria-a, por vezes, uma necessidade mais íntima: sentar-se no solo e sentir simplesmente uma tarde de verão quente e seca, refrescar-se com a água fria saída de uma mangueira…queria colo, rogava o enlevo de uns braços que lhe fundissem as dúvidas com as certezas que a aquecessem nos dias mais frios no peito de um doce ombro para receber todos os carinhos que a pudessem deixar encantar e sentir-se tocada quando ouvia da boca daquela tia chamar-lhe:

- Nina!

E será este o suave momento em que o tempo parou imerso numa grande dúvida? Será este o instante para nos questionarmos das dúvidas deixadas pela sua súbdita ausência?

A sua vida parecia orientada como se fosse um lustroso elétrico a percorrer com elegância as distâncias, mas tudo a ver, tudo a sentir, tudo a cheirar, disposta a ser a rapariga que tinha desejos intensos e fecundos que lhe permitissem almejar a felicidade, que ela tanto quis e tanto lutou para a alcançar enquanto mulher!

Revejo-a sempre jovem, porque apenas viveu a juventude e assim perdurará; magricelas, olhar vivo e intenso, senhora de um refinado sentido de humor, proporcional à sua irritação com o pedantismo e a intolerância; trazia já todo o potencial que iria fazer dela aquela que, mais tarde, todos iriam sentir como uma rapariga de carácter, senhora do seu nariz e que calcorreou sempre os caminhos que ela escolheu, nunca cedendo ao facilitismo e à apatia, mas antes, envolvendo-se precocemente com a música, com os segredos que os outros trazem guardados no seu interior. Desde muito jovem começou a desenhar as palavras que acabaram por transformá-la na alma arrebatada que ela se veio a revelar no seu curto, mas proeminente, testemunho de vida, que não mais se me apagou da minha memória e que ainda hoje sinto uma saudade cravada no meu peito! E quando a evoco sinto uma irritação, seguida de um sentimento de intolerância contra aquele que, dizem, é o Pai, e responsável por fazer a Justiça lá em cima e, por suposto, cá em baixo também, e não soube, ou então não quis, preservar esta fantástica criatura que tanto tinha para dar, mas para aprender também, e que foi arrebatadamente traído o seu destino por uma inoportuna presença naquele local, numa aurora carregada de brumas!

Quase que a vi nascer, numa rasteira habitação, rodeada de todos aqueles que verdadeiramente sempre lhe quiseram o Bem. Quando cheguei, na companhia dos meus pais, vi a minha mãe exultante com o nascimento da nova sobrinha, a correr célere na direção da jovem mãe a saudar a sua coragem e a sua força por ter tido a criança naquela casa simples e humilde, longe dos hospitais, médicos e parturientes.

Testemunharam-me, garantiram-me até, que na hora em que a criança nasceu, viram, perplexos, o pai com os braços eretos na direção do altíssimo e, em simultâneo, a dar saltos entusiásticos como se fosse uma criança, no preciso momento em que ouviu pela primeira vez o choro daquele ser acabado de nascer. Evoco também uma música que não me saí da memória, ignoro o título da composição, sei apenas que é uma canção dos Procol Harun, lendário grupo de Rock britânico dos anos sessenta e setenta do século passado que fazia furor na época; nunca mais ouvi em toda a minha vida essa música, mas como um Carma que trago sempre comigo, ela passa frequentemente no meu interior, em diálogo constante com o meu ser, e posso afiançar que onde soar a música estás tu também, o que significa que tu vives já nessa música…e por isso, como a ouço frequentemente, posso dizer-te:

- Estarás sempre comigo!

Foste um tronco viçoso e sublime, entrelaçado de ramos e extensa folhagem, e nos dias de sol resguardaste, com a sombra dos teus galhos, de todos os que procuraram a tua guarda, o teu apoio. Mas quando chovia e soprava um vento agreste também não te esqueceste da solidão, do frio, da tristeza mais vil. Foste para os amigos o que não foste para alguns dos mais próximos, mas tu vivias em permanente estado de insurreição contra os que sempre te procuraram resguardar do que achavam perigos e perdições, e vislumbravas oportunidades que a vida te ia dando para aprenderes a cresceres.  

Mas vi-te ainda com os primeiros ramos, que gradualmente se foram fortalecendo, ao ponto de começarem a surgir as primeiras folhas. Ramos e folhas cresceram tanto que puderam resguardar lindos locais para acolher pássaros entusiasmados que ensaiavam cânticos que me deixavam em êxtase. E então passaste a ser aquela linda árvore que a todos tocava pela graciosidade, e mesmo nas mais maléficas invernias, posicionavas-te sempre, mas sempre, com sentido estético elevado, que foi criando uma áurea de mulher bendita que traz a felicidade a quem dela se aproxima. Por isso permaneces viva e, pelo menos enquanto durar a minha passagem por este mundo, não sairás da minha recordação!

Tive a sorte de não olhar pela última vez para aquele manto de rendas, coberto por lindas flores que tanto gostavas, que cobriam o teu corpo gelado, naquele exato instante em que te despedias deste mundo e aguardavas pelo salvo-conduto para penetrar numa outra dimensão. Por isso, posso testemunhar que te conservo imaculada, fiel aos desígnios que tu traçaste para ti própria, às tuas certezas e incertezas que influenciaram a maneira como te vi desde o início.

Sedosos cabelos pretos, de lábios pintados de cor arroxeada, uns riscos nos olhos de um fino tracejado a preto...a gótica que sempre foste, vinculada a estilos pesados de música como o pós-punk, rock gótico, o death metal, entre muitos outros; uma música caraterizada por um certo niilismo, uma visão de vida romântica, mas sombria; Jeans rasgados, cintura alta, coturnos, vestidos e blusas com alças fininhas, barriga de fora, cruzes e chokers como acessórios.

Reservei-te um lugar de destaque, naquele altar reservado aos melhores, não por uma qualquer razão especial, mais ou menos pessoal, mas porque tu estavas entre as melhores da tua geração.

Tiveste uma vida de excessiva incompreensão, mas talvez os desentendimentos, a intolerância, que quase todos deram provas contigo, mostraram-te uma respeitável e magnânima coragem, de querer ser uma mulher de pleno direito, com opinião e autonomia para se valer a si própria. Uma mulher clarividente que olhava o mundo de frente e que não perdia tempo com vilezas ou invejas.

Na época todas procuravam apanhar o elétrico, mas à última da hora deixavam-se incrustar pela fraqueza e viam-no passar incapazes de o segurar. Mas tu, já na altura, buscavas a satisfação do desejo; rejeitavas a hipocrisia, a falsidade, a manha, a copiosa bajulação, refugiavas-te no teu quarto, rodeada de música, de cadernos repletos de palavras escritas de cima para baixo, na perpendicular, nos recantos mais íngremes de uma folha em branco, logo cultivadas por mais palavras que constituíam o jardim que te alimentava; tinhas a força das palavras que te alimentava, a certeza das tuas convicções, tinhas o carisma das fragâncias frescas que não te deixavam descansar e eternizar nos lugares e por isso não paravas um minuto sossegada! E aí, nesse horto palavroso, que sempre foi o teu refúgio, pudeste ser feliz, pudeste odiar, pudeste desesperar-te, lograste sentir ânsia de chegar, de partir, permitiste experimentar revolta, deixaste a penitência atuar, foste justa, perfeita ou autêntica ou simplesmente a mulher com os seus defeitos e virtudes.

Continuei na estrada da vida, mesmo já sem a tua presença. Muitas vezes evoquei o interior do elétrico onde sempre te imaginei a viajar, agora eternamente. Estás lá, com aquela música com que sempre te associo e recordo, e sempre com a felicidade estampada no rosto, igual a ti própria.

Tive o privilégio de te conhecer, de te estudar, de refletir e de finalmente te compreender. Quiçá, parte substancial da minha personalidade que se vai revelando e postulando nas palavras, tenha muita da tua essência feminina que, a ser assim, não se quedou rôta naquela madrugada, mas floresceu e deu inspiração a quem sente que a vontade é efémera, e que logo passa para uma obrigação ou um vício, mas o desejo, esse mantém-se vivo, obsessivo, permanente e renovado…por isso és para mim um duradouro desejo de te evocar e só se finará quando não conseguir prover os contornos do teu rosto, da tua fina e elegante figura, dos teus olhos doces, mas por vezes amargos, na dificuldade em entenderes as pessoas. Nesse dia serei também uma evocação de uma pessoa transgressora, que refletiu mais que do que viveu, mas viveu o suficiente para ponderar, tornando o último dos desejos numa realidade: evocar-te, deslizar suavemente no elétrico da memória, na companhia daquela música…e assim contemplar-te permanentemente! 

Conservo na entrada da minha casa um quadro caricatural de ti, executado por um desses artistas de rua. É uma recordação muito especial para mim por várias razões; está lá o teu elegante rosto, uma larga fita que amolece os teus longos cabelos escuros, o teu olhar expressivo, aquela vivacidade que tu espalhavas ao teu redor exposta naquele sorriso aberto e universal, a viola no chão, a mesa de bar, e tu sentada nela, distribuindo cartas, uns discos avulsos e as palavras “homens…homens…” e a exclamação:” calou!”. E o que me comove nesta caricatura, para além de te ter capturado naquele momento de forma tão sublime, é ela ter sido executado por um artista de rua, que sei que tu muito gostavas, admiravas e penso que o teu sonho era mostrar também na rua as tuas imensas capacidades que exponenciavas. Por isso, de cada vez que avistavas um na rua, não resistias aos seus encantos, nem sequer aquele tocador de gaita-de-foles de Vigo que te despertou vivo interesse e inquietação e logo que o avistastes, rodeaste-o, assombrada pela destreza como ele executava uma qualquer composição popular galega momentânea…então, veio a criança que sempre foste e virando-te para os teus pais, naquele momento humildemente, e rogaste se não podias adquirir esse belo instrumento musical de sopro?

E este expressivo quadro em que reproduz uma caricatura tua está pendurado à entrada da minha casa.

Guardo alguns discos que te pertenceram e um deles, dos “Siouxsie & The Banshees” intitulado “Superstition”. Era, eu sei, uma das tuas glórias musicais da época, um hino ao bom gosto musical, um daqueles que eu intuo que quando estavas no silêncio sofrido e mourejavas na difícil e impossível tarefa de permanecer neste mundo tocou uma derradeira ocasião. E de cada vez que o escuto, surge-me a tua delgada figura a acompanhar cada uma das músicas, especialmente aquela, que ouvi várias vezes em tom elevado ainda na tua casa, que se denomina “Kiss Them For me”, um hino ao bom gosto, à exuberância, ao amor também, de cuja letra consta o seguinte:

Beije-os Para Mim

 

Isto resplandeceu e brilhou

Para a bela rainha que está chegando

Um anel e um carro

Agora por muito você é o mais bonito

Nenhum partido que ela não atenderia

Nenhum convite que ela não mandaria

Transmitido pelo som interno

De sua promessa de ser encontrado

"Nada ou ninguém será eterno

Faça-me deixá-lo para baixo"

Beije-os para mim - eu posso estar atrasada

Beije-os para mim - se eu estiver atrasada

Isto é divino, oh isto é sereno

Nas fontes de champagne rosa

Alguém que esculpiu sua devoção

No coração aparentando poça de fama

"Nada ou ninguém será eterno

Faça-me deixá-lo para baixo"

Beije-os para mim - eu posso estar atrasada

Beije-os para mim - eu posso me encontrar atrasada

Na estrada para New Orleans

Um pulverizador de estrelas bateu na tela

Como o décimo impacto fracamente alumiado

As velas proibidas raiaram

Beije-os para mim - eu posso estar atrasada

Beije-os para mim - eu posso me encontrar atrasada

Beije-os para mim - eu posso estar atrasada

Beije-os para mim - eu posso me encontrar atrasada

 

Eu sei, é um pedido, que vindo de ti, é uma ordem: beijarei…para ti!

 

VINDIMAS

Passo a passo

De palavra em palavra

De murmúrio em murmúrio

De frase em frase

Que acaompanha a música

Que sós os vindimadores o sabem fazer

Acabo concluindo:

Há leituras sublimes

Que, avassaladoras, me preenchem a alma

E calcorreio o bardo oscilante

Obstinado

Multiplicado

De uma extensa sebe

Constituída de videiras

Que circundam a habitação

Onde se depositam

Nas velhas pedras graníticas

Em destaque e no centro do edifício

As antigas e solenes insígnias  

Da Casa dos Morgados

E é ali, naquele espaço livre e odorífico,

Onde se sobrelevam os odores

Da erva espontânea

Das maçãs que começam a espigar

Das uvas predominantes e tão desejadas  

Ou até das aquilinas vespas

Que endoidecem, em rodeios cruzados,

Em busca dos açucares;   

Mas é nas redondezas daquela casa

Que,

No Verão,  

Abunda uma intensa luz solarenga

No Inverno,

Um cinzento quadro que acaba por me tolher os movimentos  

E é naquele cenário tão bucólico  

Onde o vinho verdadeiramente começa a dar os primeiros passos

Engalanado pelas vestes verdes

Nas suas múltiplas formas de coração das suas folhas

Que escondem intermináveis caços de uvas

Que medram em obstinada e difícil terra

Que trata de tudo o que vai medrando das suas entranhas

Carrega essa demencial dose de dificuldade

Como se a vida só fosse possível e poderosa

Se vivida naquele grau de hostil dificuldade…

Mas os arrotos da grande cordilheira Lusitana

Guarnecidos nos cumes com aquela barba esbranquiçada

Mostram-me as cabras que, numa roda vida,

Se movimentam pesadonas

Com os seus úberes dilatados

E que ali vêm todos os anos

Em todas as vindimas

Ajudar o grande enólogo

A pensar o vinho

Dotando-o da complexidade dos seus taninos

Porque aquele badalo constante

Que se ouve serra acima

Mais do que uma pausa no silêncio

É um aviso:

O Queijo, dito da Serra,

Acompanha lindamente

Vai bem

Casa esplendidamente

Com o vinho que se há de produzir

No lagar da Casa dos Morgados!

 

 

O HOMEM SONHA, VAI-O CONCRETIZANDO, ATÉ QUE A OBRA NASCE

A vontade

O pensar

O fazer

O escrever

Permitiu-me uma viagem empolgante

Num daqueles balões de tons azulados

Alimentado a ar aquecido

Percorrendo as infindáveis savanas africanas

Pejadas de murmúrios

De gritos de guerra

De disparos

De rebentamentos de petardos

Mas, ouvindo em fundo,

Os sorrisos únicos e genuínos dos seus naturais

As expressões dos sentidos dos animais

Que, todavia, por ali pastam selvagens;

E nesse sonho

Em que me vejo a voar no silêncio mais simples e seco

Interrompido pelos lamentos frescos do senhor vento

Que se mostra buliçoso para me desestabilizar

Acaba agitando o meu balão…

De súbito, vem-me um novo sonho

Bem diferente do outro

No meio de um bosque

Onde um omnipresente castelo medieval

Parece vigiar todos os movimentos

Identifico a voz do meu pai

Que trago gravada dentro de mim

Desde o seu súbito desaparecimento

E, nessa sua partida tão subtil como rápida,

Como foi sempre o lema da sua vida

Parece revelar-se em mim pelo mesmo destino de vida

Mas, de repente, reflete-se de lá de cima,

De uma das torres desse castelo acinzentado

Uma luz brilhante,

Como se fosse uma lágrima resplandecente

Dessas que se usam nos aniversários por cima dos bolos

Uma tormentosa luz

Que desperta em mim sentimentos empolgantes e ambiciosos

Mas, ao mesmo tempo, me questiona

E vejo, então, a voz palavrosa do meu pai

Que me anuncia mudanças na minha vida...

Acordei do sonho

Desse sonho que não consigo deixar de lado

E muito menos olvidá-lo

E, ainda a dormitar,

Contemplo um velho relógio de areia

Em que, uma das âmbulas,

Está prestes a esvair-se a areia

E é olhando a outra âmbula

De orifício fino voltado para cima

 Que acabo por ter a epifania:

Onde a areia se foi acamando

É aí que nascerá a Obra

Que trará um novo ciclo de vida

Tão importante para mim!

NÃO ME SAIS DO PENSAMENTO

Tu és doce

Afável

Maviosa

Musical…

Mareias os meus desejos

Com essa tua flor de lótus

Que trazes tatuada na tua pele

Incendiando a minha floresta

Fazendo soar o meu carrilhão

Que se agita e se desespera

Quando te vê partir

Mesmo que seja por breves instantes

Alcançaste a suprema corte

A morada dos deuses

Que comandam a exaltação

O ímpeto

O furor afetivo

E não me digas que não o sabes

Porque te sinto respirar

Concomitante

Como se fosses um vitorioso cavalo alado

Que, elegante, voa glorioso no firmamento

Ecoando com essa tua voz de seda

A grandeza de uma paixão

Essa criança que cresceu tão depressa

Que ainda não era homem

E já me rodeava avassaladora

Sem me dar descanso

Um dia, que não são dias, ver-te-ei

Abalar

Partir

Ou simplesmente perecer

Nada é imutável

Eterno  

Fica, então, uma ténue memória

Que, seletiva, se vai perdendo

Como a bruma que abunda

Entre o mar e a costa

Que esconde o bulício das ondas

Que penetra firme nas femininas dunas

Que revolve os mistérios dos duros penhascos

Que procuram resistir às investidas do monstro

Que obscurece o areal imenso

Ali onde se evoca tão precoce monarca

Que quis ser cantado e enaltecido de forma meteórica e grandiloquente

 Mas acabou fustigado na areia de um deserto

Ficou-nos o seu nome que se foi estendendo para uma forma adjectivante  

Tu és quem enalteces as minhas grandezas

És quem me provocas interpelando as minhas fraquezas

Acabas sempre por não me sair do pensamento…

 

 

  

O PÁTIO DAS MEMÓRIAS

Percorro ínfimos caminhos, cavalgo a esperança,

Penoso, estendo-me um instante na terra,

Avisto, derramadas no solo, folhas e maçãs apodrecidas,

Um pesaroso besouro saúda-me buliçoso!

Ardilosa, encrespada, a morte veste-se de negro,

Altiva, pressurosa, inclemente,

Um frio glacial percorre o meu corpo…

Penteio cada folha, palmilho cada palavra, gasto-me em cada frase,

Escuto a voz que se anuncia em cada parágrafo,

Deixo-me penetrar pela cadência de cada capítulo;

Por fim, avisto o Pátio…

E vejo-te a ti, que percorres este livro:

A esperança redobrada num mundo melhor!

 

Receção poética que é uma espécie de azulejo preenchido com palavras que saúda todos os que se aproximam da casa.

A poesia consta do intróito de uma obra em prosa da minha autoria sobre as incessantes façanhas de alguns personagens, mais ou menos famosos, da minha família materna, obra que relata factos reais, outros assim...assim e outros ainda que são produto integral da imaginação do autor, do seu sentido de humor, dos seus afetos, das suas vontades, dos seus desejos.

A obra foi editado em livro, todo ele concebido por mim, desde a edição (de autor) até à escolha da capa e, claro, a escrita e que recebeu o título de “O pátio das memórias” .

Assim, realizei o sonho de publicar sem grandes custos adicionais. É verdade que tive já vários convites para o fazer com outras obras que apresentei a editoras mas não estou minimamente motivado para o fazer, pelas condições que me propõem e depois pela exposição pública a que inevitavelmente estaria sujeito e que decidiamente não gosto!

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