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Artimanhas do Diabo

Artimanhas do Diabo

NÃO DESISTIR

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Que rio é este?

Que nada o contém

E escapa pelas trevas?

Como se fosse

Água que se escapa

Pelas fendas das mãos?

Que manto de verde é este

Que enxameia e nos impede de ver o céu?

Que céu é este

Que só, a espaços, se mostra   

Nas delicadas águas do rio?

Que mistura de plantas é esta

Que exala uma tão grande profusão de odores?

 

Fitai  

Este rio espesso;  

Não vos parece chá com uns pingos de leite?  

Meditai na espuma transbordante

Que explode

Desliza pelas pedras abaixo

E acaba transformada em água

Que circula de mansinho

Esverdeada

Acastanhada

Refletindo os espíritos livres

Que fogem da vulgaridade

 

Água domada pela represa

Que acaba se escapando indomável

Árvores erguidas nas margens

Que sufragam a força da natureza  

Cerimonial que nos aquece   

A um certo culto

Que carrega os andores

Com gente sem fé

 

Ramos que se debruçam e desafiam a água

E miram a leveza do seu caudal

Jardim à beira rio plantado    

Gestos que se repetem uma e outra vez

De troncos que caem ininterruptamente

Para engrossar o capim selvagem

Que se forma

Para dar corpo ao vestido verde que o rio traja

 

Um instante da vida

Adornado pela contemplação

Dia solarengo

Busca-se conforto

No inestimável valor da água

Que nos dá tudo

E não nos pede nada em troca

 

Lanço a corda

Para envolver a árvore

Atiço o entusiasmo

Onde irei derramar a ira

 

Mas, num último instante,

Suspendo a ação    

E disponho-me a admirar

O que os meus olhos me trazem

Naquele momento 

Tento suster a respiração

Limito ao máximo as minhas funções vitais

E tudo porque naquele momento

Interessa-me sobremaneira absorver

O que os meus sentidos me dizem

 

Quedo-me absolutamente absorvido

No remanso daquele quadro

Em que num instante da vida

Ao alcance de todos

Me acabou por proporcionar

E podia ali ficar para sempre

Ausente e contemplativo

A admirar tão ditoso instante!  

 

FOLHA DE OUTONO

Passo a passo

Momento a momento

Me deixo enlevar

Por essa tua humildade

Que, por ser tão genuína e cintilante, 

Acaba brilhando eternamente

Como um diamante na minha cabeça!

 

O teu sorriso

Tão perene

Nestes últimos dias

Acaba por ser na minha cabeça

Flor de nenúfar num lago

 

Se me Ignoras

Eu ignoro-te

E ignoro o que os demais pensam de si

Se me persegues

Eu persigo-te

E persigo os demais que te perseguem

 

Resplandeces espontânea na candura da água escurecida

Que célere corre nesse rio

Para te deixar em lugar seguro

Guarida dos peixes do sol de outono mais inclemente

Porta-aviões seguro dos insetos

Que descansam das acrobacias aéreas 

E se aquecem ao sol

 

És sinal inequívoco do outono  

A natureza parece que morre

Mas acaba renovando-se  

Mas és também sinal do caráter nobre que te inspira:

Morres para deixar as árvores mais leves

Enfrentando melhor as tempestades

Tão habituais nesta época

Mas és também o culminar do ano

Que anuncia

A depressão

Tão nefasta em tantas pessoas

 

Folhas verdes

Que são paredes

Dos resguardos das aves

Que ali pernoitam

Ali se reproduzem

Numa parte do ano

 

Folhas castanhas  

Que conservam um brilho   

A que não resisto

De cada vez que as avisto

Sós ou acompanhadas

 

Sorrio

Ao ver as folhas caídas no solo

Ao sentir esse odor a terra

Ao captar as cores mais cinzentas do ano

Sorrio

Quando a chuva cai sobre a minha cabeça

Quando sinto que o ano sorri também

E sorrio mais ainda e sempre  

Na companhia das variações do trompete

De Theo Croker  

 

Por isso

Sorrio e louvo 

Este dom  

Que me desassossega a alma 

Mas que me dá multiplicidade de cores

Com que vejo o mundo

Loucura, fantasia, imaginação

Que não me deixa esmorecer nunca

E por isso 

Hei-de sorrir 

Sempre!

MUTILAÇÃO

Deixo-te…

Parto...

No imediato deparo-me

Com esta encruzilhada que agora me demanda

Solidão concreta e discreta

Em que fiquei

 

De ti sobram-me as memórias  

Que me poderão cobrir a tua ausência física

 

Afastei-me

Sim tive que me afastar

Porque tu assim o exigiste

Mas sem nenhuma vontade de o fazer

Agarro-me, por isso, à ideia

Embora carregada de comiseração de mim mesma

E que, todavia, ainda perdura

Que tudo não é mais que um sonho

 

Mas mergulho rápida na realidade

Que se me depara à minha frente

 E na hora da partida

Percebo o que me escondeste

 

Mas o que me dói tanto quando enceto a viagem

Como se fosse um estilete

Que corta a minha carne: 

Partir

Abandonar a casa

Ficar com as crianças

Mas perceber o rio de tristeza

Que corre dentro delas

 

Em mim

Presente estarás 

A deslizar continuamente

Por todos os instantes da minha vida

 

Recordando-te   

Dos lanços da estrada

Que fizemos em comum

Lembrar-me-ei de todas as grandes e pequenas coisas

Desse percurso que fizemos em comum:

Das árvores ou da ausência delas

Dos campos áridos em certos trajetos

Dos aluviões noutros 

Essa estrada onde tantas vezes

Nos acompanharam as crianças

E os sonhos de cada um    

 

Com o medo agora estampado nos meus olhos

E com uma certeza:

Há muito que eras consciente que a separação era inevitável

E nesta hora de despedida

Vejo que o teu interesse se dirige apenas para o material

O imaterial morreu

Como pereceu qualquer interesse de ti em mim

 

Forçaste a separação

A saída

Estiveste apenas interessado 

Em me afastar de ti

Para ergueres uma nova vida

E ainda por cima acompanhado

Sem te importares comigo

 

Eu, todavia, tento cuidar dos afetos

Vesti a minha roupa mais formal

Bebi exageradamente

Extravagâncias várias

Mas não consigo deixar de pensar em ti

Nas crianças e nas muitas certezas que tinha de ti

 

E vejo agora como tola e ingénua fui    

Acreditei demasiadamente em mim

Desisti, pensando que te tinha

Deixei de me interessar por te seduzir

E os sinais estavam lá há muito tempo

Agora vejo-os com toda a nitidez

Mas como é que permaneci tanto tempo preso

Às minhas limitadas considerações?

 

Este inevitável desfecho

Acaba por nos deixar na triste realidade:

Mais um casal que não resistiu e separou-se

 

Mas não foi o isolamento forçado em que vivemos

Que acabou nos separando    

A rutura já vinha bem lá atrás

De quando deixamos de nos ouvir

De nos importar

De nos interessar

Do que cada um fazia da sua vida

E passamos a ser mais um casal funcional

Preso apenas pelos filhos

Que agora terão dois pais

Se bem que, há muito,

A nossa vida em comum se resumisse a dois pais

Divididos, sós, inseguros e cada um no seu trilho

E não apenas uma entidade

Que irradiasse harmonia!

 

ESSE REINO MARAVILHOSO QUE É A AMIZADE

Pé no acelerador da viatura que desliza, como uma serpente, no traçado da autoestrada de perfil de montanha. Aquela via é herdeira de uma outra projetada e construída com os carcanhóis europeus e a pressa de um Ministro das Obras Públicas em deixar obra, tão comum na nossa história a partir dos Descobrimentos, o que deu origem a uma estrada perigosa e que se veio a revelar mortal para muita gente: curvas, contracurvas, alçapões, mas aditivada pelas aparências de um “Itinerário Principal”!

A velocidade que imprimo na autoestrada é moderada, tem que ser moderada, já que a sua construção ondulante, com demasiadas subidas e descidas, mais do que um traçado da categoria de uma autoestrada deveria ter, não deixa muito espaço para aventuras rodoviárias.

Mãos dúcteis tateiam o volante, modelando-o com suavidade, sem teimosia e sem rigidez, gizando-o ao de leve para a direita, para a esquerda, para o centro ou para trás, acompanhando a estrada que desliza pela montanha como se fosse um imenso tapete rolante que vai do litoral salgado até às profundezas graníticas do interior beirão, à descoberta da pátria onde o Demo aquiliano reina a seu belo prazer! 

De vez em quando um esguicho de travão, de souplesse, mas, como precaução, é preferível desacelerar. Um olhar cravado num horizonte que simboliza uma vastidão desejada, ansiada, sonhada…

De súbito, interrompo a minha mirada fixa no horizonte e deixo-me seduzir pelas muralhas que a Estrela e o Caramulo propiciam. A autoestrada é larga mas muito agarrada aos declives montanhosos: eleva-se, abaixa-se, não dá descanso ao viajante e surge, com agradável surpresa, aqui e ali, como se fosse uma tela ou uma fotografia rodeada de belas paisagens, nomeadamente naqueles pontos mais altos que nos permitem suspender a respiração, lançar uma mirada em frente, admirar a floresta vigorosa e dinâmica, cercada de locais deslumbrantes altaneiros, espraiada num imenso mar verde, que esconde um solo pobre mas carregado de vontades, como se fosse uma esbelta e oleosa cabeleira que, apesar de tudo, enaltece um rosto da mulher!

Por fim, eis o planalto que acolhe a cidade que tem como heráldica um “castelo de vermelho aberto e iluminado de ouro, tendo a primeira das torres laterais rematada por um homem vestido de negro tocando buzina de ouro, e a outra torre lateral rematada por uma árvore de verde sustida de negro e frutada de ouro. Coroa mural de prata de cinco torres…”, a cidade de Viseu, que se reporta a uma lenda que fala do rei Ramiro, da sua esposa D. Urraca, da linda moira Zahara, irmã de Alboazar, rei moiro, ou alcaide do castelo de Gaia sobre o rio Douro.

Entro numa via larga preenchida de inúmeras retundas até que chego a uma Avenida Europa. Esta nomenclatura surge-nos irónica e devassa-nos a nossa mais firme convicção que estas alusões são como os sonhos, que “sonhos são”, mas paremos então na meditação onírica e façamos uma retrospetiva que nos conduz a uma certa ironia, na simples alusão europeia desta via, com a cidade de Viseu, e de quejandos, como adiante se verá, alusivos a esta cidade!

A Europa deu guarida ao edil que durante anos e anos governou a capital do “Cavaquitão”. Modernizou-a, engrandeceu-a, deu-lhe um toque muito pessoal que perdura até hoje, como aquelas ruas atravessadas por rotundas que parecem mulheres prenhes, cujo progenitor tem como nome “Ruas”! Parece irónico, não é verdade? Que o tal edil que apadrinhou o nome a esta avenida e que a nomeou como “Avenida Europa” tenha, uns anos mais tarde, se refugiado na fria e cinzenta Bruxelas, aquela cidade onde um menino que urina eternamente seja uma das suas imagens icónicas mais fortes ou na fluvial Estrasburgo, rodeada de edifícios talhados ainda em madeira, como se fosse uma cidade medieval sitiada, perdendo o ditoso e esforçado senhor a sua bravata mais pessoal de respingar um tom escurecido à lã que lhe cobre o caco, silenciando-se com afrontosa mansidão, mas arrecadando um rico pecúlio para a sua reforma dourada! 

Esta é a realidade, tal como ela se apresenta aos nossos olhos, sem pôr nem tirar, se bem que, em boa verdade, em matéria de criatividade possamos fornecer-lhe um pouco de sal, pimenta, umas ervas aromáticas: doces, salgadas e apimentadas, por forma a tornar a gastronomia mais rica, como se fosse uma geleia rústica, que tanto pode ser servida nos locais mais simples, como nos lares mais ou menos sumptuosos porque dela, da gastronomia e das mulheres, eu digo:

- O meu reino pelas três mulheres do sabonete de Araxá!    

*****

Posso ver-te, olhar-te profundamente, experimentar a tua métrica, o teu suave sibilar que enobrece as tuas origens, a tua palavra amena e aprazível que nos deixa entrar na tua intimidade, a cor dos teus olhos que nos dão a pigmentação dos bosques repletos de pinheiros e o solo sulcado de relva irregular e silvestre…posso ouvir as tuas palavras que me evocam um coração cheio de vida, uma vontade ínfima em agradar, em proteger, em agasalhar, em plasmar uma amizade que não se deixa seduzir pelo artificialismo, pela irreconhecível vontade de agradar, mas que quer viver autónoma e sentidamente, mesmo que essa vida desponte apenas uns instantes nas nossas vidas, como são uns dias, em dois meses, vidas prolixas, profundas, dominadas pela cor e pela vontade de uma flor que se ergue no cimo de uma encosta, mesmo num fenda entre duas rochas que crescem livres por ali, agrestes e plurinominais, como são duas rochas firmes, duas plêiades criativas e sensíveis cuja duração se reflete numa amizade, numa vocação, num talento, que jamais esquecerá este encontro, se bem que ele seja um reencontro, mas nesta comunhão de vontades, de um exercício criativo, de uma intimidade mais reflexiva ele tenha sido o mais glorioso, o mais exuberante, porque dele saem valores e vontades que jamais se esquecerão: estejam onde estiverem duas forças cintilarão como duas estrelas de inaudita força e luminosidade!

Um dia poderás reler estas palavras, estes sentimentos, estas vontades, estas premonições, estes desejos, e verás que a Vida tem todo o sentido porque ela carrega todo o carinho que nós lhe queremos dar! Uma Vida agnóstica de sentidos, burlesca, irresponsável e devota do apenas pão e sustento alimentar é uma Vida vazia, vaga e de extrema simplicidade para ser erguida como a existência de um Homem…a volúpia, tão pregada pelos epicuristas, assume-se como o nosso lema de vida, tão assumida em nós pela verticalização de uma profundidade das palavras que enchem a nossa Alma de poetas encartados que forjam na prosa os encantos de uma infância que tarda em se apagar e que é nela, nessa barca, que navegaremos até ao destino traçado pelas barcas dramáticas com que Gil Vicente nos encantou.

As Barcas são o nosso agasalho do frio que sopra lá fora e que nos permite suportar a vacuidade diária que nos assola, que tanto nos entristece e que infelizmente somos obrigados a suportar. Os livros, os bons livros, as pessoas e a amizade que deles extraímos, obviamente que aqui se alude a certas pessoas, dão-nos o calor que tanto necessitamos para viver, a roupa que nos aquece e nos acode contra o frio polar que nos assola tocado por certas consciências que nos abalroam permanentemente.

E tu és a evidência do que pode fazer uma roupa, um agasalho, para tornar glorioso um encontro ou reencontro de duas almas desassossegadas que buscam redimir-se do um certo “laisser fair…laisser passer” cultural porque o que nos interessa mesmo é o conteúdo, a forma, a reflexão, a dimensão do sentimento, de um afeto mesmo que aparentemente esquecido e não o culto da imagem apenas e a suposição de que certos dons, eminentemente superficiais, é que interessa deter e dominar e que constantemente somos inundados!   

   

 

     

A ÁGUA QUE ME MATA A SEDE

Tu és fogo intenso

Desesperas-me

Mexes com a minha perseverança       

Tu és gelo cortante

Destróis o meu coração

Queimas o meu peito

 

Eu que sou eu

E nada mais

Deixa que monde as mágoas

Que há em ti

 

Esquece esse meu caráter tormentoso

Arrefece esse meu olhar sonâmbulo

E se não te puder ouvir

A declamar os teus próprios sentimentos   

Dá-me as tuas palavras escritas

Pois elas são o bálsamo prodigioso

Da minha vaidade  

De te ter lido

E de pensar

Que as escrevias assim

Dessa maneira tão intensa

Para mim

 

No teu perfil aquilino

Com que te imagino

Agora mais intenso  

Do que vou lendo das tuas palavras

Fico-me a levitar

E a suspirar

Pela tua presença

  

Guia-me, pois, em tão insana viagem

No mar

Sempre no mar

É mais perigoso

Mas mais heroico  

Para onde fomos empurrados à força

Nesta água imensa salgada e efervescente

Que nos gela as emoções

 

Se enfática fores

Farol buscas 

Eu esdrúxulo for

Lampejo de luz busco

O Don Sebastião

Que numa manhã de brumas

Regressará de Alcácer Quibir

 

Esse Farol Sebastiânico

Tão seguro e mítico

Como estrela polar

Nos dias de nevoeiro

Que projeta o seu auguro

No estridente som da sua voz

Estarrecida

Aborrecida

Que perpassa pelo espesso nevoeiro

 

As tuas mãos

São as minhas mágoas

Os teus cabelos

As minhas indecisões

Essa tua fronte

Onde se acolhem as tuas cicatrizes

São as minhas memórias

E nada mais do que memórias

Porque estar contigo

É algo impossível de realizar

Porque já és

Página do livro das recordações da minha vida

E, já não,

A mulher que eu conheci lá atrás!

  

 

A RIA

Alguns chamam-lhe

Simplesmente

Ria

Outros

Barrinha

Outros

Lagoa

Já houve até quem lhe chamasse

“Gafeira”*

 

Uma sedutora sereia

De longa cabeleira dourada

Acabadinha de vir do mar  

Submerge das águas calmas da Ria

E sussurra-me ao ouvido:

“Esta água cercada de espesso caniçal

É mar que se esquece da sua existência 

Calmo território dos amantes

Que amenizam as agruras da vida

Navegando

Nas suas águas serenas

Confessando a sua paixão!”

 

Mas o povo teima em dizer   

Que aquela água é um filho rebelde

Fruto de um amor clandestino

Do mar com a lua

 

E por isso

A Ria

Vive nos silêncios

Mas assumidamente

Amando o pai

Qual Electra dos tempos modernos     

Escuta os seus rugidos

As suas preces

Os seus excessos 

E nas noites de lua cheia

Fita a mãe brilhante e esplendorosa

Na sua firme resolução

De um escuro firmamento da noite

 

O braço

O canal

O satélite

Do mar

A ria…

Nas noites de inverno

Acorda alvoraçada

O vento forte, a chuva, a solidão

E o eco constante vindo do mar

Mas a Ria sossega  

Acaba adormecendo no regaço da vegetação

Que a embala contando estórias sem fim

Que a comovem e encantam

 

Mas no meio do canavial

Há um mundo enorme e desconhecido

De vidas microscópicas

Que nos observam

E é deslizando na aventura de uma viagem  

Pelas suas águas calmas e retemperadoras

Que encontramos um mundo abnegado

Em busca da sua própria liberdade

 

Mas o mar ameaça

Constantemente   

A liberdade da ria

 

O mar

É estrepitoso   

É Poderoso  

É Manipulador

É Violento

É Aterrador

 

A ria

Como uma enguia

Circunda no caudaloso recinto

Prolixo território de espécies vegetais

Que só proliferam em habitats como aquele 

 

Mas,

Resvala como gorduroso fio de azeite até ao mar

E este,

Que se assume ávido predador,

Traga-o num ápice

Sem se importar

Se a água que penetra no mar

É minha água

Ou

Água de outra água

E no exato instante em que a recebe

Faz daquela água

Sua própria água! 

* Designação da aldeia, puramente ficcionada pelo José Cardoso Pires, no livro “O Delfim”. 

 

 

 

 

ANUNCIO

Se anuncia al mundo

Se anuncia al mundo…

La frase dupla sale de la boca del anunciador

Que lo pronuncia de modo grave 

Y que enverga en la cabeza

Enorme sombrero mejicano

Y ele hombre continua: 

 El grande matador

Há sido cogido por um toro

En el transcurso de uña corrida al alimon;

Se adverte à la peña del matador

Que él está bien y recupera en uña finca

Cercana à la localidade de Zafra…

Mientras, él matador

Aprovecha para agradecer lo apoyo que ha recebido 

E manda un furte abraço a todos los que se han preocupado com ele!

 

Cogido ele matador

À las diez de la mañana

En uña pequeña plaza de toros

 

Dia soleado

 De silêncios alquebrados

Mañana fresquita y memorable 

 

À la hora de la cogida

El reloj de la torre de la iglesia

Anunciava las diez exatas horas de la mañana    

 

Y nesse instante

El toro mirou los matadores

Que se escondían por detrás

De uña capa roja

Brillou

El pelaje negro  

Fugoso y áspero   

De la bestia  

De nombre Hermoso

Da ganaderia del Hipólito

 

Hermoso investiu su cabeza para delante

Y acabou golpeando con sus cuernos

El lado esquierdo del matador

En las cercanias de corazon…

 

Por surte, non lo ha matado

Pero tardará mucho tiempo

Hasta que ele matador se planteará

Al frente de un toro!

 

Por ahora, ele matador camiña tranquilo

Por los campos de su finca en andaluzia

Mirando las golondrinas

Que vuelan circundantes

À los riberos para caçar los mosquitos

Y para se refrescaren en las tardes más calientes

 

Él matador continua mirando los toros

Su vicio, su vida

Pero, ahora, los mira lejanos a él

 

La mañada de toros camiña

De passo calmo

Y distante

Al redor del tapete verde

Que cubre los campos

 

El matador non se ha olvidado

Del cuerno del toro

Que lo ha dejado submisso

Á la razón

Distante del sentimiento  

 

Dale alas

Ángel de la guardia

Para que el matador pueda volar

Distante de tus versos, de tus palabras

Que feren su emotiva arte

Establecida na cozedura

De los filamentos dorados

De los trajes de luces de los matadores;

 

Matador vuela

sueña 

Inverte tu vida

Non mates más

El toro

 

Escribe

Escribe

Que essa és

Tu arte suprema 

Y verdadeira! 

MAR DE SENTIMENTOS

Suspenso

Caminhando na frescura da manhã

Sol tímido que me vai aquecendo os ossos

Luz cintilante que me ilumina a alma  

Vento discreto que me arrefece o ímpeto

Mar omnipresente à ilharga  

 

A esperança esmorecida volta a nascer  

Acalma-me as labaredas de humor

Que me atormentam 

Passo estugado, vivo, intenso e incisivo

No parapeito da costa  

 

Trilho que palminho em ripas de madeira

Assente na areia ou acoletado nas dunas

Caminhando vou recebendo

Encorajado

Os suaves odores anisados

Das múltiplas ervas que se misturam

No areal que, há minha frente, se ergue

 

Olho o mar

Permanentemente  

E não me canso de o admirar:

Eflúvios que me penetram

Cores esfuziantes

Umas vezes, azuis fortes

Outras vezes, esverdeadas

Outras vezes, acinzentadas

 

De repente,

Vislumbro ao fundo na linha do horizonte

Uma embarcação que parece imobilizada

Que verão do barco os mercantis marinheiros?

Terra? Brumas? Ou mar, apenas mar?

Que farão aqueles solitários homens encerrados num barco

Que navega no mar alto há tantos dias?

Em quantas línguas se expressarão naquele navio?

Quantas pátrias reunidas naquela embarcação?

Quantos credos, quantas opiniões, quantas vidas existirão naquele barco?

Mas, afinal, não é preciso pensar o mesmo

Para dar a volta ao mundo fechado num navio tanto tempo!

 

E que dizer de um caranguejo

Aquele caranguejo

Que parece caminhar nas pontas das patas

E que nos olha com ar desolado e desconfiado

Acentuadamente de aparência estrábica

 

Odores iodados emanados da água do mar que fervilha

Dão-me uma insondável força

Para não me desviar um milímetro

Do rumo que fui traçando

E não é uma libelinha, uma borboleta

Ou mesmo uma gaivota ou até uma elegante garça

Que se me atravessem no meu percurso

Que possam despertar assim tanto a minha atenção

E que façam aquilo que não sou

E que me obriguem a não ser o que sou

 

Uma ode ao mar

Manhã cedo se diverte a edificar pequenos lagos, exíguas poças   

Guarida de inúmeras espécies que nadam nas suas calmas águas

Olho, entusiasmado, para tentar descortinar a misteriosa estrela-do-mar

Ou esse pertinente cavalo-marinho

Ou um saboroso sargo

Ou mesmo a indesejada tainha

Carregada de odores a hidrocarbonetos

Acabo apanhando umas conchas que vão deslizando na areia mais próxima ao mar

Recolho um búzio e delicio-me a ouvir o tonitruante som do mar

 

E pudesse eu dar-te ouvidos

E pudesse eu conhecer todos os teus desígnios

E soubesse eu saber todos os teus enigmas ancestrais

 

Não precisaria tanto de ti

Ó mar acidentado

Pois bem podias sepultar este corpo que se cansará

Como tantos outros desta existência

E desejará

Um dia

Perecer suave enrolado nas tuas saias

Envolvido no teu peito enorme

Sepultado no silêncio

Das tuas águas mais profundas!  

 

 

 

 

POEMA VERDE

A luz apaga-se

A noite é escura

Pode, ou não, ser longa

 

Tento dormir

Em vão,

Permaneço acordado

 

Desespero-me

Estremeço

Tento, desejo mesmo, adormecer  

Mas sinto-me incapaz de o fazer

Parece que algo se diluiu na minha corrente sanguínea

Que me impede de adormecer interruptamente  

 

Acabo por te rever

Folheando esse teu livro

Que ficou para a história com o teu nome de poeta

Página a página

Verso a verso

Palavra a palavra   

Tu que tão escassos livros publicaste

Mas nesse teu livro de poeta que se assoma ao meu sonho

Vêm-me citações recheadas de versos

Consistentes

Reais

Ideias fantasiosas também

Que foste deixando

Em tão efémera passagem por esta vida

 

Tento encontrar-te

Na tua fugaz modernidade

De longas filas de homens e mulheres

Desesperados

Que se acotovelavam

Às entradas dos hospitais

E sem que ninguém os atendesse

  

Vislumbro esse médico

Que a fé popular lisboeta 

Alcandorou a santo

Apesar de todas as dúvidas

Do episcopado ali tão perto

 

Olho, enfim,

Com um olhar mais abrangente

Para me recordar da tua silhueta

Restam-me uns lampejos do dia

Mas acabo por me perder  

Na noite profunda

E vêm-me à tona

Pensamentos

Desejos

Quiçá, que não consegui realizar durante o dia

 

E nessa noite de sombras

Que foi a minha noite adormecido

Vislumbro um homem ao longe

Não sei pelas semelhanças,

Se pelo meu desejo

acabo associando-o a ti,

De aparência frágil

De tonalidade epidérmica pálida

E nutrido por um olhar

Precoce e jovial

Daqueles homens eternamente jovens

Abonecado por um bigode

Que nos parece querer sussurrar algo

 

E esse homem, acabou segredando-me palavras sentidas

Descrições de uma dura realidade bem sofrida

Pontuadas por exposições tão fantasiosas  

 

Acabo perdido nas palavras

Que deixaste para a história como poeta

Algumas que retratam tão duras realidades

Povoadas de fantasmas

Que teimam em girar

Nessa mente pululada de febril imaginação

Que não descansava nunca

 

Mas tu, jovem poeta,

Que pereceu aos trinta e poucos anitos

Porque me persegues tanto nos últimos anos?

Será que me queres avisar de algo?

Porque recorres constantemente

Ao rumor para me avisar

Nos silêncios da noite

E sussurras tantas vezes

A nomenclatura estrangeirada com que me apresento?

Acaso julgarás que és deus e eu o Diabo de gente?

 

E sim,

Pega na viola

Toca

Eleva a tua voz e canta

Os teus maiores e atuais desígnios

Já que o não pudeste fazer em vida

Tão amarguradamente ignorada por todos

Onde os teus poemas

Só após a tua morte  

Passaram a ser apreciados

 

Hoje és tão citado

Até nas academias és estudado

Mas morrestes, não sei se convencido do teu valor,

Pelo menos sem o reconhecimento dos demais

Como muitos,

Estavas deslocado num tempo

Em que a arte poética

Louvava sempre essa viagem aos sentimentos

E tu surgias aparentemente tão seco e racional!

 

Prefiro, pois a solidão

Que não me citem

Que não me bajulem

Dou apenas aos outros

O que quero dar

Até os dados aparentemente mais banais

Escondo, escondo-te

E quando escrevo, escrevendo-te

É para aplacar os buracos negros da minha existência

Apenas!

 

Ao poeta Cesário Verde.

NASCI EN EL MEDITERRÂNEO*

Melodiosa música

Esta que vos apresento

Que trespassa  

Com a sua envolvência

As paredes do corpo

E que acaba envolvendo o coração

 

Suave bater do pêndulo

Cuco que esvoaça

De árvore em árvore…

De repente,

O relógio de parede

Dá o mote e anuncia a hora

 O som que ecoa   

Vem da longínqua Floresta Negra

  

Voz cristalina   

Que se ergue em crescendo   

Do soberbo Joan Manuel Serrat

E deixa-me naquele limbo  

Do vai e vem

Do sobe e desce

Do mar

Que testemunhou

As maiores epopeias

E as maiores

Catástrofes

Da civilização ocidental;

Camões ignorou-o olimpicamente!

 

E a música lá se vai estendendo

Até que chega o momento

Em que as palavras

Parecem querer dizer tudo:

- Nasci en el Mediterrâneo…

 

Vontade de assumir o difícil

Compacta maneira de decidir  

Vertical firmeza

Assunção da escolha

Momentos imprescindíveis  

É a hora de perceber

 Se navegaremos destemidos

Em mar tão azul como este

 

Não receies

Marinheiro  

O mar

Que se abre na frente dos teus olhos

Mesmo que o seu desígnio último seja

Mais que um mar

Um cemitério

Uma fronteira

Um desafio

Mas navega em frente

A glória vencerá  

Todas as réstias de indefinições

Que uma existência  

 Marcada pela calmaria das suas águas  

Te possa, mesmo assim, atormentar

 

Ter a sereia nos braços

Adornando-a de carícias

Preenchendo-a de Beijos   

Entrelaçado nos desejos dela

Ânsia em possuir todo o seu corpo

Sorvendo os seus seios maliciosos 

Cobertos de mel

Mesclados de sabores de vinhos florais

E a oliveira que testemunha

A ancestralidade  

Das águas do mar

 

As mãos suadas e trémulas  

Voz dissonante   

Que não o impedem

De ouvir o som do mar  

Que soa delicado

Numa sinfonia multicolor

E que parece assumir-se

Como um déspota no meio

Dos suaves gestos

E protagonismos discretos

Em que todos parecem querer viver

 

As aves voam próximas das embarcações

Parecem querer avisar

  Que aquele mar, por vezes, prega partidas  

E volto a ouvir:

- Nasci en el Mediterrâneo  

 

Sob a areia do escaldante do deserto

A multidão se apinha

E, sem alternativa,

Quer partir naquelas jangadas

Ou embarcações abarrotadas

Arrebatadamente sós

Ou empolgados na comunhão com os outros

- Allahu Akbar

 

   Porém, a solidão que parece emergir em ti   

Foi sempre a força motriz

Que te acabou salvando    

Mas, hoje, uma certa catástrofe

Cada vez mais se anuncia

Com os nacionalismos viris

E que parecem querer aniquilar a nossa civilização   

 

Afinal, o que vejo no mar,

Neste mar que é o espelho da nossa civilização?

Silhueta que adorna as tuas águas

Como se fosse um livro carregado de imagens 

Perfil grego que emerge

Dónis incestuoso

Que busca nas palavras

Da poesia e da prosa

A sua salvação

 

E a minha alma

Que parece caminhar num túnel comprido e escuro

De paredes revestidas de citações de filosofia grega 

Colunas cobertas por páginas da Torat Judaica

Chão que se adorna de páginas e páginas da Bíblia

Daquelas citações que nos ensinam a pensar

E a não acomodar-se

Aos desígnios de uma vida

Pontuada pelo pensamento único,

De los fascistas...

Pero, “non passaran!”**

 

* Título de uma música, que é um hino, de Joan Manuel Sarret!

* *Frase de Dolores Ibárruri, La Pasionaria.

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