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Artimanhas do Diabo

Artimanhas do Diabo

A RIA

Alguns chamam-lhe

Simplesmente

Ria

Outros

Barrinha

Outros

Lagoa

Já houve até quem lhe chamasse

“Gafeira”*

 

Uma sedutora sereia

De longa cabeleira dourada

Acabadinha de vir do mar  

Submerge das águas calmas da Ria

E sussurra-me ao ouvido:

“Esta água cercada de espesso caniçal

É mar que se esquece da sua existência 

Calmo território dos amantes

Que amenizam as agruras da vida

Navegando

Nas suas águas serenas

Confessando a sua paixão!”

 

Mas o povo teima em dizer   

Que aquela água é um filho rebelde

Fruto de um amor clandestino

Do mar com a lua

 

E por isso

A Ria

Vive nos silêncios

Mas assumidamente

Amando o pai

Qual Electra dos tempos modernos     

Escuta os seus rugidos

As suas preces

Os seus excessos 

E nas noites de lua cheia

Fita a mãe brilhante e esplendorosa

Na sua firme resolução

De um escuro firmamento da noite

 

O braço

O canal

O satélite

Do mar

A ria…

Nas noites de inverno

Acorda alvoraçada

O vento forte, a chuva, a solidão

E o eco constante vindo do mar

Mas a Ria sossega  

Acaba adormecendo no regaço da vegetação

Que a embala contando estórias sem fim

Que a comovem e encantam

 

Mas no meio do canavial

Há um mundo enorme e desconhecido

De vidas microscópicas

Que nos observam

E é deslizando na aventura de uma viagem  

Pelas suas águas calmas e retemperadoras

Que encontramos um mundo abnegado

Em busca da sua própria liberdade

 

Mas o mar ameaça

Constantemente   

A liberdade da ria

 

O mar

É estrepitoso   

É Poderoso  

É Manipulador

É Violento

É Aterrador

 

A ria

Como uma enguia

Circunda no caudaloso recinto

Prolixo território de espécies vegetais

Que só proliferam em habitats como aquele 

 

Mas,

Resvala como gorduroso fio de azeite até ao mar

E este,

Que se assume ávido predador,

Traga-o num ápice

Sem se importar

Se a água que penetra no mar

É minha água

Ou

Água de outra água

E no exato instante em que a recebe

Faz daquela água

Sua própria água! 

* Designação da aldeia, puramente ficcionada pelo José Cardoso Pires, no livro “O Delfim”. 

 

 

 

 

ANUNCIO

Se anuncia al mundo

Se anuncia al mundo…

La frase dupla sale de la boca del anunciador

Que lo pronuncia de modo grave 

Y que enverga en la cabeza

Enorme sombrero mejicano

Y ele hombre continua: 

 El grande matador

Há sido cogido por um toro

En el transcurso de uña corrida al alimon;

Se adverte à la peña del matador

Que él está bien y recupera en uña finca

Cercana à la localidade de Zafra…

Mientras, él matador

Aprovecha para agradecer lo apoyo que ha recebido 

E manda un furte abraço a todos los que se han preocupado com ele!

 

Cogido ele matador

À las diez de la mañana

En uña pequeña plaza de toros

 

Dia soleado

 De silêncios alquebrados

Mañana fresquita y memorable 

 

À la hora de la cogida

El reloj de la torre de la iglesia

Anunciava las diez exatas horas de la mañana    

 

Y nesse instante

El toro mirou los matadores

Que se escondían por detrás

De uña capa roja

Brillou

El pelaje negro  

Fugoso y áspero   

De la bestia  

De nombre Hermoso

Da ganaderia del Hipólito

 

Hermoso investiu su cabeza para delante

Y acabou golpeando con sus cuernos

El lado esquierdo del matador

En las cercanias de corazon…

 

Por surte, non lo ha matado

Pero tardará mucho tiempo

Hasta que ele matador se planteará

Al frente de un toro!

 

Por ahora, ele matador camiña tranquilo

Por los campos de su finca en andaluzia

Mirando las golondrinas

Que vuelan circundantes

À los riberos para caçar los mosquitos

Y para se refrescaren en las tardes más calientes

 

Él matador continua mirando los toros

Su vicio, su vida

Pero, ahora, los mira lejanos a él

 

La mañada de toros camiña

De passo calmo

Y distante

Al redor del tapete verde

Que cubre los campos

 

El matador non se ha olvidado

Del cuerno del toro

Que lo ha dejado submisso

Á la razón

Distante del sentimiento  

 

Dale alas

Ángel de la guardia

Para que el matador pueda volar

Distante de tus versos, de tus palabras

Que feren su emotiva arte

Establecida na cozedura

De los filamentos dorados

De los trajes de luces de los matadores;

 

Matador vuela

sueña 

Inverte tu vida

Non mates más

El toro

 

Escribe

Escribe

Que essa és

Tu arte suprema 

Y verdadeira! 

MAR DE SENTIMENTOS

Suspenso

Caminhando na frescura da manhã

Sol tímido que me vai aquecendo os ossos

Luz cintilante que me ilumina a alma  

Vento discreto que me arrefece o ímpeto

Mar omnipresente à ilharga  

 

A esperança esmorecida volta a nascer  

Acalma-me as labaredas de humor

Que me atormentam 

Passo estugado, vivo, intenso e incisivo

No parapeito da costa  

 

Trilho que palminho em ripas de madeira

Assente na areia ou acoletado nas dunas

Caminhando vou recebendo

Encorajado

Os suaves odores anisados

Das múltiplas ervas que se misturam

No areal que, há minha frente, se ergue

 

Olho o mar

Permanentemente  

E não me canso de o admirar:

Eflúvios que me penetram

Cores esfuziantes

Umas vezes, azuis fortes

Outras vezes, esverdeadas

Outras vezes, acinzentadas

 

De repente,

Vislumbro ao fundo na linha do horizonte

Uma embarcação que parece imobilizada

Que verão do barco os mercantis marinheiros?

Terra? Brumas? Ou mar, apenas mar?

Que farão aqueles solitários homens encerrados num barco

Que navega no mar alto há tantos dias?

Em quantas línguas se expressarão naquele navio?

Quantas pátrias reunidas naquela embarcação?

Quantos credos, quantas opiniões, quantas vidas existirão naquele barco?

Mas, afinal, não é preciso pensar o mesmo

Para dar a volta ao mundo fechado num navio tanto tempo!

 

E que dizer de um caranguejo

Aquele caranguejo

Que parece caminhar nas pontas das patas

E que nos olha com ar desolado e desconfiado

Acentuadamente de aparência estrábica

 

Odores iodados emanados da água do mar que fervilha

Dão-me uma insondável força

Para não me desviar um milímetro

Do rumo que fui traçando

E não é uma libelinha, uma borboleta

Ou mesmo uma gaivota ou até uma elegante garça

Que se me atravessem no meu percurso

Que possam despertar assim tanto a minha atenção

E que façam aquilo que não sou

E que me obriguem a não ser o que sou

 

Uma ode ao mar

Manhã cedo se diverte a edificar pequenos lagos, exíguas poças   

Guarida de inúmeras espécies que nadam nas suas calmas águas

Olho, entusiasmado, para tentar descortinar a misteriosa estrela-do-mar

Ou esse pertinente cavalo-marinho

Ou um saboroso sargo

Ou mesmo a indesejada tainha

Carregada de odores a hidrocarbonetos

Acabo apanhando umas conchas que vão deslizando na areia mais próxima ao mar

Recolho um búzio e delicio-me a ouvir o tonitruante som do mar

 

E pudesse eu dar-te ouvidos

E pudesse eu conhecer todos os teus desígnios

E soubesse eu saber todos os teus enigmas ancestrais

 

Não precisaria tanto de ti

Ó mar acidentado

Pois bem podias sepultar este corpo que se cansará

Como tantos outros desta existência

E desejará

Um dia

Perecer suave enrolado nas tuas saias

Envolvido no teu peito enorme

Sepultado no silêncio

Das tuas águas mais profundas!  

 

 

 

 

POEMA VERDE

A luz apaga-se

A noite é escura

Pode, ou não, ser longa

 

Tento dormir

Em vão,

Permaneço acordado

 

Desespero-me

Estremeço

Tento, desejo mesmo, adormecer  

Mas sinto-me incapaz de o fazer

Parece que algo se diluiu na minha corrente sanguínea

Que me impede de adormecer interruptamente  

 

Acabo por te rever

Folheando esse teu livro

Que ficou para a história com o teu nome de poeta

Página a página

Verso a verso

Palavra a palavra   

Tu que tão escassos livros publicaste

Mas nesse teu livro de poeta que se assoma ao meu sonho

Vêm-me citações recheadas de versos

Consistentes

Reais

Ideias fantasiosas também

Que foste deixando

Em tão efémera passagem por esta vida

 

Tento encontrar-te

Na tua fugaz modernidade

De longas filas de homens e mulheres

Desesperados

Que se acotovelavam

Às entradas dos hospitais

E sem que ninguém os atendesse

  

Vislumbro esse médico

Que a fé popular lisboeta 

Alcandorou a santo

Apesar de todas as dúvidas

Do episcopado ali tão perto

 

Olho, enfim,

Com um olhar mais abrangente

Para me recordar da tua silhueta

Restam-me uns lampejos do dia

Mas acabo por me perder  

Na noite profunda

E vêm-me à tona

Pensamentos

Desejos

Quiçá, que não consegui realizar durante o dia

 

E nessa noite de sombras

Que foi a minha noite adormecido

Vislumbro um homem ao longe

Não sei pelas semelhanças,

Se pelo meu desejo

acabo associando-o a ti,

De aparência frágil

De tonalidade epidérmica pálida

E nutrido por um olhar

Precoce e jovial

Daqueles homens eternamente jovens

Abonecado por um bigode

Que nos parece querer sussurrar algo

 

E esse homem, acabou segredando-me palavras sentidas

Descrições de uma dura realidade bem sofrida

Pontuadas por exposições tão fantasiosas  

 

Acabo perdido nas palavras

Que deixaste para a história como poeta

Algumas que retratam tão duras realidades

Povoadas de fantasmas

Que teimam em girar

Nessa mente pululada de febril imaginação

Que não descansava nunca

 

Mas tu, jovem poeta,

Que pereceu aos trinta e poucos anitos

Porque me persegues tanto nos últimos anos?

Será que me queres avisar de algo?

Porque recorres constantemente

Ao rumor para me avisar

Nos silêncios da noite

E sussurras tantas vezes

A nomenclatura estrangeirada com que me apresento?

Acaso julgarás que és deus e eu o Diabo de gente?

 

E sim,

Pega na viola

Toca

Eleva a tua voz e canta

Os teus maiores e atuais desígnios

Já que o não pudeste fazer em vida

Tão amarguradamente ignorada por todos

Onde os teus poemas

Só após a tua morte  

Passaram a ser apreciados

 

Hoje és tão citado

Até nas academias és estudado

Mas morrestes, não sei se convencido do teu valor,

Pelo menos sem o reconhecimento dos demais

Como muitos,

Estavas deslocado num tempo

Em que a arte poética

Louvava sempre essa viagem aos sentimentos

E tu surgias aparentemente tão seco e racional!

 

Prefiro, pois a solidão

Que não me citem

Que não me bajulem

Dou apenas aos outros

O que quero dar

Até os dados aparentemente mais banais

Escondo, escondo-te

E quando escrevo, escrevendo-te

É para aplacar os buracos negros da minha existência

Apenas!

 

Ao poeta Cesário Verde.

NASCI EN EL MEDITERRÂNEO*

Melodiosa música

Esta que vos apresento

Que trespassa  

Com a sua envolvência

As paredes do corpo

E que acaba envolvendo o coração

 

Suave bater do pêndulo

Cuco que esvoaça

De árvore em árvore…

De repente,

O relógio de parede

Dá o mote e anuncia a hora

 O som que ecoa   

Vem da longínqua Floresta Negra

  

Voz cristalina   

Que se ergue em crescendo   

Do soberbo Joan Manuel Serrat

E deixa-me naquele limbo  

Do vai e vem

Do sobe e desce

Do mar

Que testemunhou

As maiores epopeias

E as maiores

Catástrofes

Da civilização ocidental;

Camões ignorou-o olimpicamente!

 

E a música lá se vai estendendo

Até que chega o momento

Em que as palavras

Parecem querer dizer tudo:

- Nasci en el Mediterrâneo…

 

Vontade de assumir o difícil

Compacta maneira de decidir  

Vertical firmeza

Assunção da escolha

Momentos imprescindíveis  

É a hora de perceber

 Se navegaremos destemidos

Em mar tão azul como este

 

Não receies

Marinheiro  

O mar

Que se abre na frente dos teus olhos

Mesmo que o seu desígnio último seja

Mais que um mar

Um cemitério

Uma fronteira

Um desafio

Mas navega em frente

A glória vencerá  

Todas as réstias de indefinições

Que uma existência  

 Marcada pela calmaria das suas águas  

Te possa, mesmo assim, atormentar

 

Ter a sereia nos braços

Adornando-a de carícias

Preenchendo-a de Beijos   

Entrelaçado nos desejos dela

Ânsia em possuir todo o seu corpo

Sorvendo os seus seios maliciosos 

Cobertos de mel

Mesclados de sabores de vinhos florais

E a oliveira que testemunha

A ancestralidade  

Das águas do mar

 

As mãos suadas e trémulas  

Voz dissonante   

Que não o impedem

De ouvir o som do mar  

Que soa delicado

Numa sinfonia multicolor

E que parece assumir-se

Como um déspota no meio

Dos suaves gestos

E protagonismos discretos

Em que todos parecem querer viver

 

As aves voam próximas das embarcações

Parecem querer avisar

  Que aquele mar, por vezes, prega partidas  

E volto a ouvir:

- Nasci en el Mediterrâneo  

 

Sob a areia do escaldante do deserto

A multidão se apinha

E, sem alternativa,

Quer partir naquelas jangadas

Ou embarcações abarrotadas

Arrebatadamente sós

Ou empolgados na comunhão com os outros

- Allahu Akbar

 

   Porém, a solidão que parece emergir em ti   

Foi sempre a força motriz

Que te acabou salvando    

Mas, hoje, uma certa catástrofe

Cada vez mais se anuncia

Com os nacionalismos viris

E que parecem querer aniquilar a nossa civilização   

 

Afinal, o que vejo no mar,

Neste mar que é o espelho da nossa civilização?

Silhueta que adorna as tuas águas

Como se fosse um livro carregado de imagens 

Perfil grego que emerge

Dónis incestuoso

Que busca nas palavras

Da poesia e da prosa

A sua salvação

 

E a minha alma

Que parece caminhar num túnel comprido e escuro

De paredes revestidas de citações de filosofia grega 

Colunas cobertas por páginas da Torat Judaica

Chão que se adorna de páginas e páginas da Bíblia

Daquelas citações que nos ensinam a pensar

E a não acomodar-se

Aos desígnios de uma vida

Pontuada pelo pensamento único,

De los fascistas...

Pero, “non passaran!”**

 

* Título de uma música, que é um hino, de Joan Manuel Sarret!

* *Frase de Dolores Ibárruri, La Pasionaria.

POEMA A QUATRO MÃOS II

NESSA TUA VOZ


Que até mim me chega diariamente
Através das tuas palavras
Escritas em proféticas aparas
De escuras páginas
Pontuadas de palavras
Que são como o céu escuro da noite
Repleto de estrelas coladas ao firmamento

As tuas palavras abastecem-se das minhas
Lavradas em fundo branco
Como se fosse uma imagem polar
Mas no meio destas palavras criativas
Os ursos são perseguido pelas focas
As raposas são presas fáceis do tempo
E as palavras são, então, aves multiformes
Que esvoaçam sem rumo
Próximas às cabeças dos homens
Que se aventuram
Na mescla camada de neve e gelo
Que ajuda a temperar as minhas palavras!

Trazes na tua mão
Uma taça multicolor
Como se fosse um arco-íris
Onde seguras a tua vontade
Com a força das palavras empolgadas
Do sal, desse sal, que escorre
Da água
Da bruma que te protege
Dos olhares que tanto te ferem
Dos olhos negros que só enganam
Quem se deixa enganar
Da tua cútis enegrecida
Salpicada das cicatrizes
Que, vida empolgada,
Te acabou por conduzir
Dessa inclemente desproporção
Dos que, afinal, gostam das palavras
Porque apenas gostam de nós

Mas afinal o que te restam são palavras
São fortes sentimentos
E é aí onde mergulhas com todo o teu ser e elegância
Onde não temes nunca a força do mar
A fúria das suas marés
E onde nunca te sentes só
Porque a lua estará sempre ali
Para te deixar sair dessa obscura sombra
Que esse teu mistério
Não se cansa de celebrar nunca
Em cada palavra que escreves
Nesse céu negro de que te serves
Para comunicares ao mundo
O teu incondicional amor às palavras
E a quem as profere
De modo tão suave
E esplêndida maneira
De as dizer…

###

Entrego-te em mãos
Taça multicolor
Arco-íris
Bebo-o cor a cor
E derrama os últimos pingos
Na tua alma que escreve
Quebra a taça
Deixa-a partir-se
Na confusão de um Diabo
Que enreda-se em artimanhas
Para querer derrubar
Almas que não o seguem
Solta palavras
Nessa tua neve sê humilde
Que a humildade quer-se cor
Em ideias com sentidos
Cativas-te tu, cativas o outro
Escreve, organiza, orienta
Dá sentido, questiona
E tantos arco-íris em taças
Beberas
E palavras tuas serão amenas
Majestosas no escuro.

Escrito a quatro mãos por:
ETAN COEHN

e

SANDRA (https://cronicassilabasasolta.blogs.sapo.pt/

FLOR CEIFADA

Alma acolhedora

Benigna sentinela

De coração selvagem

Atropela-se

Mas acaba fluindo  

O que no seu interior

Vai fervilhando como lava

 

E as flores,

Mesmo tão próximas do vulcão,

Vermelhas da cor do fogo

Medram viçosas

Mesmo tão frágeis

Mas flores há

Que no campo

Irradiam felicidade

Mas isso é apenas pura ilusão!   

 

Celebra Amiga

Rejubila

Canta

 Até que a voz

Que para tão longe se foi

Regresse,

Como as cinzas à jarra,

 Donde se havia esgueirado

Num dia em que a música

Se ausentou, de vez, da tua vida

E te ficou apenas um vago desejo de cantar

 

Gritos que se enchem de preces vingativas

Saem dos lábios descerrados

Do homem

Que acha que lhe pertences

Como se fosses um objeto

 

E os gritos tolhem-te a vontade

Deixam-te silenciosa e aterrorizada

Mas esperançosa  

Que ele te ame tanto  

E não acabe ceifando atrozmente a tua vida;

 

Eis-me, pois, nesta fresta da muralha medieval  

Para aqui anunciar ao mundo

Ondo costumo ouvir o vento

E onde presto toda a minha atenção

 Para ouvir este vento

Que se movimenta ciclónico

Em fúria

Brutal

E assassino

Que te lançará nos caminhos da destruição!  

  

Aguardo que as tuas mãos deslizem pelo papel

Desenhando com essa caligrafia arredondada

As luzes e as sombras

Que a obra a quatro mãos exige

 

Renega ao teu nome

Dispersa as histórias

Que são a história da tua vida

Sê frugal, mas não simples

Abjura à pátria

Mas não renegues ao amor

Não fujas dele covardemente

Não abomines o ridículo

Não exorcizes a maldição

O que disseres

O que fizeres

Rasgará as nuvens

E a estrela iluminará os céus mais enegrecidos

E a água cristalina do oceano

Refletirá o azul vivo do céu sem nuvens

E se planteará, perante, as linhas que,

Como escadas,

Darão a frase e o mote

Donde brotará o poema

  E os dedos longos fazem-se às teclas

E os meus pensamentos

Procuram os teus

E os teus

Os meus!

 

Mas, afinal, homem cruel, porque mataste?

Porque abateste

Aquela a quem dedicaste

Tantas palavras

Tantos versos

Tantas juras?

Podias, ao menos,

Ter-lhe dado morte mais corporal

Uma faca, por exemplo?  

Mas escolheste coisa tão vil

Uma bala que lhe trespassou o coração…

  

Mas alguns ainda dirão:

Ele era muito amigo dela

Amava-a tanto

Que acabou por não resistir…

Mas está arrependido?

Ó se está

Ó se está...

Um pobre diabo

Coitado!

 

NOTA: Na impossibilidade de identificar uma a uma, como se fosse um extensíssimo mural, cada uma das mulheres que foram assassinadas por motivos fúteis pelos maridos em Portugal e no mundo, dedico, a todas elas, este sengelo mas sentido poema.

A ESFINGE

Deixa-me dizer-te

A ti que me lês

Com tanto interesse

Curiosidade

Ou até por comiseração

Mas a ti, também, que me lês fugazmente

Que olhar o Sol

Não basta

Para o encantares

Para o decifrares

Para o teres na mão…

 

Se o olhares

mas se te decidires cumprimentá-lo

E se, ainda, te dispuseres louvá-lo   

Dás-lhe força

Dás-lhe majestosidade

Dás-lhe primazia

E assim ele se sentirá

A estrela

Que não te abandonará jamais!

 

E, assim, o Sol   

Não precisará de lançar

A sua língua de fogo

Acompanhada

De punitiva lavareda

Mas dar-te-á o calor e a luz

Que tanto precisas

Sobretudo para não esmoreceres nos dias de inverno mais frios

Como se fosses um simples cardo do monte

Que a tudo renuncia

Até a companhia de cintilantes flores

Crescendo solitária

E tudo para que a sua roxa flor

Não vá parar a uma jarra

Mas acabe a coagular o leite de cabra.

 

E o Sol temperado

Aplacará a ira

Da esfinge silenciosa

Mortífera

Traiçoeira   

Que os gregos tanto temiam.

 

Mas, Sol,

Dá-me a luz

A força das palavras

O sentir forte o meu coração

Para que a mensagem

Chegue até ti

Derrube os muros que ergueste e que te cercam

E que te cristalizaram na solidão  

Da infância em que, todavia, vives

E te recusas a sair

Porque tens tanto medo

Tanto receio

Tanto pavor

Que,

Achas,

Só cavalgando um elefante nas suas imponentes ancas

 Ele te protege do tigre

Mas a tua defesa é   

Lidar com os males que há no mundo!

 

E não há retângulos, quadrados ou áreas circulares

O que há são imagens na nossa cabeça

Sem formas, sombreadas,  

Que nos podem abalar  

 

O que há são manias

Que nos podem perseguir

 

O que há são vozes

Que parecem

Ditames ou vontades de Belzebu…   

 

NÃO TE DISTANCIES TANTO MAS ESCREVE POR FAVOR

Branca página

De desespero

Branca neve

De serenidade  

Brancas rosas

De pura alva matinal!

 

Limbo esperançoso que tranquiliza a minha alma 

Página em branco

Que se assoma ao ecrã

À espera que os neurónios se iluminem

E abarrotem de figuras negras o branco da página

Como se fosse um cenário polar

E as palavras, aqui e ali, que vão surgindo,

Aves famintas que esvoaçam  

E grasnam

Em simultâneo

No silêncio glacial;

 

Frase profunda, sentida

Evoca a expressão do olhar

Que antevejo nas tuas palavras

Ideias que te desassossegam

Imagens que não quero perder de vista.

 

Palmilho esse mesmo caminho que escolheste

A doçura dos teus lábios descerrados

Que rogam beijos suaves, entusiasmados, arrebatados

Pequenas marcas das tuas pegadas

Ideias que se completam, intemporais,

Uma inspiração capciosa que bule

Até com a serpente nos longos invernos do hemisfério norte.

 

Não quero deixar-me guiar pelo engano

Que amolece os cristais

Sigo o instinto, a gratidão, a rebeldia

A largueza, a frontalidade, a revelação

Diante da página em branco

Que depressa se completa com a abundante monção

Das palavras, das emoções, dos desejos, dos afetos

Água ávida e abundante corre no solo

Impregnando de um forte odor a terra

Acabo rendido à paz quando leio o que escrevo;

 

Mas desespero-me e exaspero-me

Afinal porque escrevo? E para que escrevo?

Afinal, escrevom escrevo tanto

Mas, afinal,

Não consigo dizer-te o que te quero realmente dizer

Nesse branco polar

Que é o ecrã do meu computador

Quando nu se apresente

Sem os vorazes e voadores pássaros; 

 

Falsidade imerecida

Que me concede a inusitada constelação da realidade

A perfídia que me entedia

Encolhe-me, enruga-me, desespera-me, imola-me

Não fico em paz mas não tenho vontade de guerrear

 

Escrever, escrever, escrever

Se for feito de paixão e empolgamento

Pode cegar-me

Pode distorcer-me da dita realidade

Do comum dos mortais

Posso até sucumbir a ela…

Mas como poderei fazer

Para não sucumbir à realidade?

Deixar de escrever? Morreria certamente por dentro!

Deixar de amar? Esfumar-me-ia obviamente!

 

AINDA FRANCAS MEMÓRIAS

Nostalgia que me invade

Ficção ou narrativa

Que contextualiza

O génio ou o louco

Que comigo coabita?

 

Pululo de sonhos e desejos

Que acabam por apagar

Alguns dos momentos tristes que já vivi…

 

Condenso

Ainda mais o olvido

Palavra tão bela

Suave

Musical mesmo

Suprema que está de termo  

Tão excessivamente complexo

Agnóstico mesmo

E que quebra a minha relação com deus

Se é que alguma vez a tive:

Esquecimento;

 

Ambas são pura essência da alma

Do que ela quer, do que ela não quer,

Olvidar

É o que não quero eliminar

Dói-me tanto

Mas desafia-me sempre

É ferida aberta que não sara

Esquecer

É mais mecânico

Mais conforme o preceito, o cânone

Da racionalidade

Do mundo cibernético

Está mais para a palavra delete

E quer mesmo apagar da nossa vida!

 

 Esse caminho que eu tantas vezes palmilhei

Rodeado de vegetação

Das borboletas que flutuavam no ar

E que pareciam posar para mim

Dos pássaros que estavam mais ao meu alcance

Que se embrenhavam pelo meio da vegetação

De galho em galho

Cantando bonitas melodias

Do som das pinhas que ia caindo no solo

Mesmo na minha frente

E que eu chutava deliciado para longe   

Nesse passadiço em que o tempo

Mascarado de terra batida

Ia temperando o caminho com ervas odoríficas

 

Mas todo esse espaço ardeu

E, com ele, muitas das memórias esvanecerem-se

Outras conservo-as todavia

Há uma que não me saí da cabeça

Mais do que imagem

O som que ao longe

Soava do chiar mecânico das rodas em madeira

Dos carros de bois

E do olhar submisso, assumidamente humilde,

Dos lavradores que acompanhavam a junta de bois

Que puxava o pesado carro

E que quando se cruzavam comigo

Acompanhados daquele pau de marmeleiro

Fino e pontiagudo

E na extremidade sobrava um ferrete

Um sinal de uma certa rusticidade mais selvagem   

Tiravam o chapéu em sinal de respeito

Faziam aquela vénia subserviente

Para o menino de calções

Que brincava deliciado no meio do mato

E que ia aprendendo, aos poucos, a ser homem!

 

E que dizer das tardes de verão?

Intermináveis, insuperáveis, insubstituíveis

Os rios, esse espelho da natureza,  

Onde tantas vezes pesquei

Exalavam a lodo, a hortelã, a odores anisados   

E a palha

Sempre presente seca e arrebitada

Mais longínqua 

Mas desse tempo sobrevém sempre

Essa figura paterna

Que vive dentro de mim

E que só se extinguirá

Quando a chama

Que trago dentro de mim

Planamente se consumir!

  

 

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