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Artimanhas do Diabo

Artimanhas do Diabo

JARDIM DO ÉDEN

Jan the Elder Brueghel - The Garden of Eden in the

Tela Jardim de Éden de Jan Bruegel.

 

Essa gota de água do mar

Que eu conservo

Com tanto enlevo

Na palma da minha mão

Já não se encrespa

Já não ameaça

Já nem sequer se escapule  

Pereceu

Lá atrás

No passado;

Mas  

Esse passado

Ainda me persegue no presente  

E continuará a perseguir no futuro

Nada nem ninguém poderá tirar-mo!

Naquele dia

Em que simplesmente ignoraste

Os meus chamamentos  

Ou pelo menos não respondeste

Aos meus apelos

Feitos de viva voz e reiteradamente

Acabei subterrado na areia

De forma tão inconsistente

Como absurda

Para não mais de lá sair.

Eu podia ser a areia

E tu podias ser o mar

Eu podia ser o vento

E tu podias ser o sol

Podíamos ser o que nós quiséssemos

Podíamos ser dois amantes

Montados num cavalo alado 

Ou a caminhar

Pachorrentos

Num dos recantos do jardim do Éden

Ao lado de uma multidão de seres

Tão distintos e tão diferentes

Regando as plantas 

Que exalam finos odores

Que crescem naquele jardim

Mas acabamos longe

Amargurados

Cada qual no seu canto

A suspirar

Com pena de si próprios

A sarar as saudades

No sal depositado nas feridas 

Tentados

A seduzir  

Novamente a paixão

Carregada de luz própria

Que derruba os impossíveis

E une todas as vontades; 

Mas fomos incapazes de regressar ao jardim

Onde tu e eu fomos tão felizes

Onde as palavras eram o nosso sustento

Os nossos desejos vontades

Ao todo que dissemos um ao outro

Ao muito que deixamos por dizer

Mas falamos tanto

Ensandecemos até    

Desejamos tanto  

Procuramos loucamente

A verdade que nos perseguia

Oculta

Ou às claras

Chegamos até a fazer amor

Nos locais mais improváveis

À luz do dia

Debaixo dos olhares das pessoas que passavam apressadas

E que de tão inusitado

Não entendiam a loucura que tomara conta de nós!

Naquele recanto do jardim

Tão secreto como improvável

Apropriei-me dos teus finos lábios

Sorvi essa tua boca húmida

Carregada de desejo  

Tão ávida da minha

Mas foi por pouco

Separamo-nos

E ficamos a suspirar

Pelo mar

Pela areia

Pelas noites quentes de verão

A olhar extasiados as linhas da mão

A surfar nas ondas da paixão

Que esse mar calmo

Tanto nos quis dizer

E nós não o soubemos interpretar!

Hoje…

Ficou apenas o mar e a areia

E por isso digo para comigo

Tu és o mar

Eu sou a areia

E todos os dias nos envolvemos

Nesse leito silencioso da paixão!  

 

 

 

 

 

SENHORA DOS MEUS OLHOS

6-7.jpg

Senhora

Vós fostes

Outrora

Quem me iluminou a alma

Quem me devolveu a ilusão

Que carreguei desde a nascença   

A uns olhos banhados

Nas águas da esperança,

Por isso não vos ides

Sem que os contempleis   

Pelo menos num derradeiro instante! 

Rogo-vos

Que não me abandoneis

Assim desta forma tão pueril   

Pois

De cada vez que vos contemplava  

Clareava-me a íris  

E o verde se atrevia a ficar  

Resplandecente e magnético  

Como o entardecer raiado

De um dia quente de verão!

As palavras já não me querem

Eu também já não as quero

Para quê palavras

Se sinto de ti

Uma tão grande ausência

Como um justificativo

Para não me dizer nada

Apenas fugindo  

Simplesmente fugindo  

Com a frieza para ergueres  

A escultura da ausência 

Escapulindo-te à glória  

À doce vida que poderias ter

E que

Simplesmente

Acabaste por não querer;   

Disseste-me certa vez

Que vieste ao mundo

Para fazer o difícil

E não para urdir o fácil

Ora,

Fugindo-me

Fazes o difícil

Não o fácil

Mas haverá um dia

Em que já nem mesmo a fuga  

Te fará volver à vida

Quando os negros corvos

Num fim de tarde cinzento

E com a alegria estampada no rosto 

Sobrevoarem a tua casa

Para te dizer que já não és

Dali

Nem daqui

Gritando em coro

De vida e cruel voz

A história de um homem

De distintos olhos verdes

Que muito amou  

Mas a sombra já se diluiu

E a áurea

Que aqueles olhos verdes transportavam

São pó

São história

Carregada de misticismo 

E os vastos amores

Que não se fartava de louvar    

São já gravuras de um livro

Paginado no interior de cada uma das paixões;

Então

Senhora dos meus olhos

Porque não me olhais

Mesmo que seja

Na derradeira alvura

Condoída de esperança?

 

 

 

LIBÉLULA

 

Curiosidades-da-Libélula.jpg

Sorrio

Num dia de luz resplandecente

Deambulo  

Voo

Como uma libélula:  

Abrandando

Acelerando,

Quase tocando

No infindo arvoredo

Que se ergue à sua frente

Que parece a velha muralha fortificada 

Em busca de uma áurea

De felicidade

De prosperidade

De coragem  

E eu

Ali no meio

Não me deixei tolher  

Nem acovardar

Pelos ditames…

Rodeei o que de mau

Se me deparava

No cimo da estrada

Entretive-me a observar o declive do terreno

Entrecortado

Pela imagem da feliz libélula

Que me saudou uma e outra vez

E quando esvoaçou

E ficou mais íntima

Tive a sensação de estar a ver um daqueles aparelhos

Que já fazem parte da história da aviação:

Umas asas gigantes

Um corpo

Longo

E delgado

Que parece frágil

Mas faz das fraquezas forças

Voando

Esvoaçando

Projetando-se no ar com aquele enorme olho

Que lhe dá o nome de tira-olhos!

Mas hoje

Esta libélula

Não sei porquê

Deixou-me em choque  

Trouxe-me

Deslizando como um delgado fio de areia

A solidão desesperada;  

Deambulei

E deparei-me

Gravado nas várias lápides

Com as últimas palavras

Dos que se finaram neste mundo

E foi então que me apercebi  

Que a libélula

Se recusou a entrar

No cemitério

Tórrido

De pedra  

Sem sombras nem descanso; 

E quando calcorreava o terreno enfileirado

Por sepulturas

Chamando

Repetidamente

Pelo teu nome

Mesmo sibilando

Nessa tua letra inicial

Não me respondente

E foi então que me apercebi

Que Já não estás ali

Nem aqui

Já não estás em parte nenhuma

E já nem a libélula

Te quer próxima

Ela que tem o dom da felicidade!  

Vives

Agora

No pó que se ergue

Soprado pelos ventos

Aborrecido

Entediado

Entrementes 

Deslocando-te

De árvore em árvore

De folha em folha

Fixando-te unicamente no verde

Que se escancara à tua frente  

Que incendeia esse teu olhar,

E não quer

A libélula

Viver assim

Voando simplesmente   

Mas sim refugiar-se  

Numa tranquila sombra dos dias mais quentes

Para amenizar a paixão

Que te serpenteia  

Como a libélula!  

O MEU VILAR DE MOUROS

maxresdefault.jpg

Final de agosto de um verão memorável do ano de 1982.

O comboio a abarrotar partiu da linda cidade de Viana do Castelo a meio da manhã, para percorrer o último terço do trajeto até à formosa vila que tem seu nome no caminhar…

Na veneranda composição prateada seguia a irreverente juventude da época, expetante para assistir ao Festival de Vila de Mouros. Porém, poucos se recordavam do primeiro e, até esse momento, único evento do Festival ocorrido no ano de 1971. De vez em quando sentia-se um forte odor à droga da época: liamba!

O olhar do rapaz ia eletrizado por uma loira de olhos azuis brilhantes, de rosto pintalgado de sardas, que ia acompanhada por uma rapariga de pele assaz esbranquiçada e cabelo preto que, dir-se-ia, tudo indicava que havia sido escurecido artificialmente. A loira, logo no início da viagem, na imperial Estação de São Bento, acenou um olhar ao rapaz, sorriu ligeiramente e não mais tirou os olhos do rapaz de olhos esverdeados, de estatura pouco habitual para o Portugal de então, seco de carnes e de olhar sonhador!

No entanto, a tarefa não se anunciava fácil para o jovem pois, para além de ter de se aproximar da loira, que distava cerca de cinco metros dele, havia que perceber que língua a rapariga falava, embora o inglês, já na altura, fosse a língua universal. E alguma timidez do rapaz, a ousadia da loira e por último a distância foi adiando a aproximação, o que significa que viajara do Porto a Viana do Castelo, mais de uma hora, e mantinha-se apenas pelo olhar, os sorrisos, e o rapaz incapaz de se aproximar porque não se sentia à vontade para avançar, naquele emaranhado de gente jovem, que se olhava com curiosidade, para se apresentar à loira que só faltava vir na sua direção, até porque a partir de certa altura ele começou a aperceber-se que as duas pareciam falar dele, sorriam, e a loira parecia aguardar unicamente pela investida do rapaz.

Por fim, no final da manhã, anunciou-se a estação de Caminha, o local de destino da viagem de toda aquela juventude.

Logo que saiu do comboio o rapaz percebeu que seria tarefa muito difícil, para não dizer impossível, alcançar a freguesia de Vila de Mouros, isto porque nas imediações da estação concentrava-se uma multidão que aguardava por um transporte que a pudesse levar até ao recinto onde decorreria o festival. E, então o rapaz, à boa maneira portuguesa, aproveitou o aglomerado e uma certa dispersão da atenção da multidão, mais concentrada em conseguir transporte para o recinto do festival em Vila de Mouros, para finalmente se aproximar da loira e da amiga. Saudou as duas e esboçou umas palavras em inglês, e a primeira regozijou e respondeu em tom entusiasmado, e não mais se separaram no decurso do festival.

W., a loira, era uma cidadã tedesca que ouviu falar deste festival e que, desde logo, lhe pareceu um evento muito original e interessante pois abarcava um conjunto diversificado de formas de expressão musicais que a ela, na altura estudante de música, lhe parecia digno da sua comparência. E sem perder tempo, meteu-se com a amiga, por essa Europa fora, a calcorrear os trilhos ferroviários que a levassem até ao Festival de Vilar de Mouros, uma espécie, no estilo do evento, não na programação, de um Woodstock à portuguesa porque ele privilegiava praticamente todo o tipo de música mais ou menos sofisticada, do popular, ao rock, ao jazz.  

Por fim, os padeiros, distribuidores de bebidas, enfim, tudo os que tinham uma carrinha que desse para carregar homens, começaram a transportar aqueles milhares de jovens até aos terrenos do festival. Hoje seria muito mais fácil chegar aos terrenos onde se realizava o evento, teria, enfim, um conjunto de valências, que passariam pela organização do transporte da estação dos caminhos-de-ferro de Caminha até à linda freguesia de Vila de Mouros, mas na altura era tudo um pouco bizarro, sem grande organização o que dava azo ao desenrasca e à improvisação.  

O rapaz foi transportado, juntamente com W. e a amiga, numa carrinha de caixa em madeira, coberta por uma lona esbranquiçada, propriedade de um dos padeiros, e os jovens que seguiam no interior da viatura, a sorrir, excitados e agarrados à armação que era quem interiormente suportava a lona, que esvoaçava à velocidade que o condutor conseguia imprimir, encostados uns aos outros para não se estatelarem, sobretudo nos trajetos mais sinuosos em que a carrinha parecia serpentear por uma estrada de montanha, e que podia apenas ser imaginada pois a construção em lona impedia ver o terreno que iam calcorreando. Enfim, pareciam animais encurralados!

O rapaz teve W. nos braços, esboçou palavras sentidas de amor; entrecortaram-se de citações poéticas, olharam-se de frente, beijaram-se avidamente, deixaram no ar o testemunho exótico das longínquas estrelas, que teimam em cintilar indefinidamente, e tão presentes nas noites de verão, jurando mútuos desejos que aqueles sóis os acompanhariam para sempre nas suas vidas, e que quando os avistassem era o sinal do reencontro dos dois. E a verdade é que ainda hoje, o já homem, quando observa as estrelas, entranha-se uma saudade enorme de W., cidadã tedesca!

Mas há algo que não necessita da noite, das estrelas, e que continuamente vem à memória ao eterno rapaz, aquela entoação dos erres de W., como aquele pronunciar Vilarrr de Mourros, como também não lhe saí da cabeça um impaciente público, que aguardava pelo início do festival, e por volta das 22:30 horas irrompeu pelo palco um homem de provecta idade, de pequena estatura, mas decidido, pegou no microfone e exclamou:  

 - Loucura! Loucura! Loucura controlada... sem medicamentos... sem camisas de força! Loucura controlada pela vossa inteligência e pelo amor! Adeus, adeus... obrigado, obrigado!

O rapaz veio a saber mais tarde que este arrojado homem se chamava António Augusto Barge, era médico de profissão, e um dos entusiastas da primeira hora deste festival em 1971.

E na despedida o rapaz ouviu W. dizer:

- Auf Wiedersehen mein Prinz…

E retribuí-lhe com um:

-  Auf Wiedersehen Prinzessin!

 

O PASSADO

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O que trago comigo

Bem fundo  

Comigo morrerá  

Sem se revelar

A minha espessura

Indelével

E renitente

Por vezes,

Desmesuradamente opinitiva,   

Sobre o que os outros padecem

Mas de mim?

De mim mesmo?

Portas trancadas

Um leve sinal de fumo negro

Augúrios

Que se silenciam

Densos

Metafísicos  

Que acabam passando para uma página em branco

Que, depressa, se contagia com as palavras

Que saem à velocidade dos pensamentos

Deste que,

Vive,

Apoderando-se dos sentimentos alheios;

Um dia de cada vez

Não são dias

É uma rotina pérfida 

Alicerces para uma vida suspensa

Presa a um impasse

A uma resposta

Por algo que tarda a chegar

Que não se apaga ao toque apenas

Mas que faz dos relatos

A sua própria definição;

Amo demasiado as pessoas

Para as deixar padecer em solitário

E por isso tento dar voz,

Como um presságio,   

Ao que elas com tanto afinco me procuram dizer…

Campos de cereais espigados

Que balançam ao leve rumor de um vento tímido

Que me deixam extasiados   

E gozo o forte odor a terra

Que me persegue

Mesmo quando já ali não estou

Rosas carmesins

Ajudam-me a florescer o desejo que tanto há em mim

Trutas e achigãs

Vorazes, silenciosos e mortíferos    

Porém, acabo saboreando o mar

Sorvendo o interior de uma ostra esquartejada

E os sentidos não se apagam jamais

Flauteio vigoroso no Verão pelos bardos engalanados das videiras

Erguidas a pulso por homens colossais

Que se colam às serranias mais íngremes

Suportados por rochas

E é nos cumes mais altos

Que recebo o vento

Esse mesmo vento

Que tantas vezes acompanhou Torga

Nas suas elucubrações  

Tocando-me com vigor no rosto

E é aí que sinto que descubro a paisagem da meseta ibérica

Nesses Campos de Castilla

Onde o sevilhano António Machado

Versejou sobre Sória

Essa mesma terra  

Onde há muitos séculos atrás

Nasceu esse mítico Poema de Meo Cid!

Mas serei eu mesmo a sentir isso?

Ou, mais uma vez,

Vesti as vestes de alguém

Saudoso e circunspecto

Que não quer revelar o passado?    

QUANDO É QUE NOS VOLTAMOS A ENCONTRAR?

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Ao caminhar na planície da vida 

Deitando meigos olhares

Sob fina erva que se agita aos humores do cansaço  

Agitando-me no embalo da voz doce do vento

Vi uma especial e reluzente margarida…

Os meus olhos aglutinaram-se

A irradiar luz

Como o de uma estrela presa ao firmamento

O meu coração incendiou-se  

A minha respiração ofegante tropeçou   

E então decretei:

- Um suspiro do tamanho do mundo!

Tê-la

Ao meu lado,

Mesmo que fugazmente,

Mas até nisso o amor é subversivo  

Circunflexo

Amplo

E virginal

A essa bela margarida

Que viçosa se ergue na natureza,   

Naquela primeira vez

Tão tórrida como intensa    

Em que o suor não me dava tréguas

Gotejando sobre o seu corpo de menina,

Salgado

E viçoso,

Que se auto impôs

Adormecer  

Na banalização dos dias

Como doente terminal

Com a esperança esvaída

A observar inerte  

A areia escorrendo em catadupa  

Pelos dedos da mão,

Foi dádiva divina

A que não poderia ficar indiferente

Num choque de dimensões cósmicas

Em que o Amor é pródigo!

A sua carne

Tenra, harmoniosa e envolvente

Não me deu descanso

As suas mãos

Pareciam ramos de folhas

Frescas, odoríficas e lenitivas

A envolver-me

Sem me dar descanso,

Os seus lábios

Pousando uma e outra vez nos meus

A filar todos os contornos

Redesenhando as formas 

Para serem como os seus

Os seios

Não me deram descanso

Fixando em mim

Um saudoso desejo de os sorver

Os nossos corpos

Compenetradíssimos

Como se o mundo se suspendesse 

Naquele instante

Do que eu e ela fizéssemos

Para não dar azo a instantes mortos

Toldando-nos a razão

Amenizando aquela sensação de vazio

Em que ambos nos encontrávamos…  

E complementei-me nela

Cessando a solidão

Cuidando da terra onde vivifica

A minha bela margarida

Com todas as suas pétalas eretas

Onde me senti tão aconchegado!   

Quero regar as suas raízes

Ressequidas

Para que jamais sintam

Esses dias sórdidos

Que foram queimando a sua esperança

À espera

De uma pitada de afeto

Pois a ausência matou-lhe a esperança

E acabou encerrada numa concha

Decretando o fim do sonho…

Por fim

Voltaste

Minha formosa margarida

A sonhar  

A entregar-te

Apaixonada

Aos ditames românticos de um homem

Que te quer

Como a sua própria vida!

Enquanto te aguardava

Passei humedecido

Os olhos

Por uma verdejante seara de milho

Que ali perto parecia saudar-me  

Ao de leve

Naquele ondular afirmativo de um vento quente

Com que os deuses abrilhantam as nossas emoções  

E naquele passo harmonioso

Parecia querer assinalar-me

Como empolgante e inesquecível

Seria esse dia  

Como monção

Que se agigante e alcança a planície

Dando-lhe a vida tão desejada.

Abri as extremidades

Da empedernida casca da ostra

E, nesse instante,

Explanei-lhe ao ouvido o meu assombro

E acabei sorvendo a sua madrepérola

Que me deixou os lábios a arder!

E naquela serra

Onde parecias gazela a correr na pradaria  

Transbordante de regozijo

Em busca da fonte mais fresca e pura

Para retemperar o cansaço

Começaste ténue a roçar-te

Nas minhas coxas

Embalando a minha cintura     

Acariciando as minhas nádegas

Beijando-me profunda e ininterruptamente

Até que

Por fim

E já perto da despedida

Me demandastes:

-Querido…é já ali…já ali…que nos voltamos a encontrar?

 

 

 

 

 

 

 

SEPARADOS

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Ter-te

Na noite em que as estrelas cintilantes deslumbravam  

Nesse céu infinito

Iluminado pelo azul e amarelo das auroras boreais 

Naquele bosque

Onde os nossos corpos se irmanaram

Húmidos e em salmoura,   

Atiçados

Em chama

Acetinados

E voluptuosos,

Foi monção

Para o meu corpo adormecido

Ressequido

Anestesiado

E solitário;

Recebi da pureza da tua água

Que caiu vigorosa e firme

E que foi o alimento que,

Há muito,

Me faltava

E que eu,

Sem o saber,

Tão afanosamente buscava

Acabou penetrando

Nos meus ínfimos poros.

Estivemos unidos num só abraço

A noite inteira

E tive-te

E tu tiveste-me

Com se fossemos um só

Mas eu,

Como sempre,

Acabei caminhando sozinho

Afastei-me

Convencido que,

Em cada novo amor,

Te encontrava,

Mas em vão;

Como uma andorinha nunca esquece onde nasceu

E voa, voa, voa sem parar

Até que alcança o beiral onde seus pais a criaram

Assim eu jamais me esquecerei

Das tuas sequiosas palavras

Que aqueceram as minhas entranhas

Do teu fulgor

Que incendiou a minha paixão

Até hoje

E que vagueia, levita

Desassossegado

À tua procura

Mas não vejo as árvores,

Que naquela noite

Carregada de estrelas,

Tão tranquilas nos acolheram

Não sinto o cheiro da resina

Que penetrou nas nossas narinas

Quando jubilamos em conjunto a nossa paixão

Não ouço as tuas suaves e receosas sílabas

Com que pela primeira vez me presenciaste

Naquela Fábrica de sonhos

Que nos uniu para sempre

E já não vislumbro sequer

A praia, essa praia que me descreveste,

Onde tantas vezes me procuraste em vão

Que, dizias tu,

Estava escrito nas estrelas

Que um dia as nossas almas se encontrariam

Mas,

De cada vez que me esforço por avistá-la,

Vejo mar revolto  

Que acabou derrubando as dunas

Destruiu as plantas odoríficas

Que lustram a costa 

Arrastou as nossas silhuetas

E o vento fez o resto

Separou-nos!

E o farol

Que nos dias imersos em cerradas neblinas

Tocava aflitivo  

De tempos a tempos  

Para avisar a navegação

Silenciou-se

Já nem sequer ilumina os barcos

Nem o nosso amor

Que se dispersou pelo universo. 

 

SOBERANA DA ILHA

86178-Funchal.jpg

Não vês

Caminhante severo

Mas superficial

Como podemos serenar a marcha

E olhar mais o que nos rodeia

Quando vemos alguém a contemplar

E a desfrutar do silêncio

Sentado numa árvore gigantesca

Secular

A querer-nos dizer

Como se deve encarara a vida?

Rodeada de uma multidão esverdeada

Que se arrebita ao olhar de quem a sabe observar 

Como os olhos desta mulher

Vigilante e serena mulher

De vestido preto

Ajustado ao corpo

Que até

Se desapossou da sua sombra

Fundindo-a

Com a das árvores gigantescas que a circundam

Que serenam na sua habitual convivência

Agitadas pelos silvos de Éolo

Perante tão plácida mulher

Que não se deixa atenuar

Pelos que os outros dizem

Mas pelo que o seu coração lhe diz…

Ao longe

Mas logo ali

Construções

Que vão crescendo no meio da floresta

Que pouco a pouco

Invadem a pacatez do bosque

Acabam por confundir e expulsar as aves

Cada vez mais longínquas

Remetidas aos pináculos mais sombrios da ilha;

Mas lá longe

A cidade,

Decerto o Funchal,

Se anuncia

Engalanado sempre todo o ano

Envaidecido

Pela sua fama internacional

Debaixo de uma neblina temporária 

Que lhe tira o brilho das suas cores

E lhe faz desabar os lamentos e as saudades de um dia solarengo,

Mas o vestido negro

Contrasta na mulher

Com o seu tom de pele alvadio

E que exala uma mocidade

Que parece querer fugir

Aos anos que a vida lhe dá

E por isso

A serenidade

A paciência

E a extrema bondade que exala

Cada um dos seus poros

Faz dela a soberana da ilha!

 

Grato à L. por me ter judado a escrever este post. 

    

TEMERÁRIA

Ameixa.jpg

        I

Desapegou-se  

Uma ameixa

Temerária

Precipitando-se 

Do alto da árvore que lhe deu ser 

Até ao solo

Rolando

Para iniciar uma expedição

Entusiasmada e resplandecente!

Com o decurso da viagem

Foi perdendo fulgor

E passou a mover-se

Como um minúsculo deão  

De um venerando mosteiro medieval;  

E, nesse entretanto,

Roçou ténue

No corpo de uma mulher,

De corpo assimétrico

Em chama

Que jazia amaneirado  

No meio da relva

Debaixo de um sol abrasador de verão,

Até que se imobilizou;

Ao toque

A mulher

Assustou-se

Arrefeceu

A colisão fez-lhe diluir o desejo

Mas logo se recompôs

E voltou esfuziante

Aos tórridos pensamentos

Mas acabou por colher a ameixa,

Que jazia imóvel a seu lado,

Depois de percorrer caminhos

Nunca antes experimentados   

Debaixo de uma áurea de mistério,

E tateou o fruto  

Subtilmente

Pelo seu corpo,

Rendido  

Às gotículas

Saídas de uma pequena fenda

Aberta pelo impacto da queda,

Sugando a seiva

Depositada no seu indicador

Que acabou levando aos lábios

Em deleite

Épico   

Sentindo-lhe a frescura

Da juventude

E a força da maturidade

De tão elegante fruto

Que se despegou intencionalmente da árvore  

E que caiu com estrondo no solo

E rolou pelo terreno em declive 

Impaciente para conhecer o mundo…

                    II

Mulher distanciada

Que abjurou

Há muito

Ao toque de estranhos:    

Esse pai abusador não lhe saí do pensamento…

Vive sitiada nesse castelo sombrio

Isolada

E lastimosa

Separada dessa mãe

Que sempre morreu de inveja do marido

Que nunca quis verdadeiramente sê-lo!

Mas pela primeira vez

Aquela ameixa

Fê-la sentir deleitada

Não lhe deu descanso

E com a ameixa na mão

Palmilhou

Suave e pacientemente

As arestas mais longínquas e íntimas do seu corpo

Deixando gotículas

Escancarando a fragilidade

Não assumida

Mas inexpugnável

Da solidão endeusada

Que tantos dissabores lhe trouxe

Mas algumas vantagens,

Pois, verdadeiramente, nunca soube o que era amor fracassado

Ou não correspondido

Vivendo, antes, uma vida sem exposição;

E com a mão

Ceifou barreiras

Tabus incestuosos,

Com a ameixa na mão

Aliciou o desejo

E percorreu a cordilheira

Flácida e elástica encimada pelos pináculos

Desceu pelo delgado sendeiro por onde as gotas de suor vagueiam

Alcançou a planície

Alongada

Seca e em chamas

Onde um velho poço seco e abandonado

Que antes a ligava à terra 

É agora resquício apenas

No centro daquela seara, 

Mas a ameixa não se quedou na pachorrenta paisagem  

Foi-se a eito 

Percorrendo

Abrindo caminho

Até que

De tanto buscar

Descobriu a gruta

Pura   

Recôndita

E macilenta

Velada pela água salina

Que lhe apaga a sede no interior    

Nunca antes visitado

E,

Movida a canoa,

Mareou   

No ramificado e escuro covil  

Fruindo o que a atrevida e arrojada ameixa

Acabou por lhe proporcionar:

E fez-se-lhe uma luz…nunca antes vista!   

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